Sobre
o último livro de Eric Hobsbawn.
Acabo
de ler o capítulo “The intellectuals: role, function and paradox”, do livro “Fractured
Times: culture and society in the twentieth century”, de Eric Hobsbawn (London:
Little,Brown, 2013).
Sou
leitora ávida de Hobsbawn: tanto que, logo que bati os olhos, comprei o livro - em inglês - na FNAC de Leuven, Bélgica, muito mais caro do
que aqui, por não ter consultado os catálogos das livrarias online e saber que
o lançamento no Brasil foi simultâneo ao europeu. Mas, valeu: a publicação brasileira não tem o luxo da foto
da Marilyn Monroe na capa (dura). Amo livro de capa dura!
Como
disse, sou leitora habitual do autor. Neste capítulo, entretanto, decepcionei-me
e indago as razões que o levaram a publicar um texto tão superficial àquela
altura da carreira e após ter publicado tantas obras que se tornaram clássicos
da historiografia e referências para as Ciências Humanas e Sociais em Geral.
“Fractured
Times” é uma obra póstuma, mas parece
que o autor, morto há cerca de um ano, a
havia deixado organizada, considerando a leitura da Introdução. Esta inferência
me leva a descartar o primeiro
raciocínio que me veio à mente: “golpe editorial” para vender livros de um
autor recém-falecido, “coletando” e vendendo qualquer cantinho de papel ou
arquivo deixado. Não parece ser o caso. Hobsbawn assina a
introdução, onde descreve o conteúdo de cada capítulo. Trata-se de uma obra
acabada, portanto.
Começa
fazendo uma pergunta meio “sem pé nem cabeça”: poderíamos considerar a existência
dos intelectuais antes do advento da escrita? Faz as devidas ressalvas aos xamãs, mestres antigos e outros líderes da oralidade e destaca a
importância da escrita para o registro da memória e da consolidação dos
intelectuais etc etc etc.
Ao
questionar o papel dos intelectuais no século XXI, fazendo um breve retrospecto
do último século e meio, sem nenhuma novidade além da caricatura (engajamento
francês, desilusão com o socialismo real etc etc ), o autor apresenta uma “solução
original” no último parágrafo: a integração entre os intelectuais individuais e
as massas.
Ora, Gramsci (citado por Hobsbawn ao mencionar
o conceito de “intelectual orgânico” ) escreveu centenas de páginas sobre o
assunto há quase um século, conferindo profundidade na análise. E Hosbawn se “oferece”
para resumir tudo isto em um capítulo de 10 páginas? Lamentável.
Sinto
o gosto do lugar-comum: a “sociedade do conhecimento” (conceito rejeitado pela
intelectualidade anticapitalista, que ele utiliza sem ressalvas explícitas)
necessita de trabalhadores com maior escolarização, nunca houve na história tanta gente com
diploma de Educação Superior, os novos graduados não deixaram de ser pobres por
terem obtido a graduação, salvo raras exceções, e por aí foi ele, mapeando a elevação da
escolaridade no século XX e XXI, o papel do conhecimento e sua relação com o
poder. Enfim: nada que justificasse a assinatura de um Eric Hobsbawn.
Fico
por aqui com esta resenha. Lerei os demais capítulos e dou notícias.