Educação Corporativa
Aparecida
Tiradentes[1]
Modelo de formação onde
a empresa ocupa o lugar da escola, desenvolvendo programas de educação formal,
informal e não-formal de trabalhadores, fornecedores e a comunidade, visando ao
aumento de produtividade, valorização do
capital de marca e como estratégia hegemônica de difusão da concepção de mundo
da classe dominante.
Surgiu na década de
1950 nos Estados Unidos, com o objetivo de treinar os trabalhadores de algumas
indústrias, mas adquire maior expressão no contexto neoliberal. Por um lado, a
ideologia de desqualificação do Estado social
enseja que o capital se declare “mais competente” para formar os
trabalhadores. Por outro lado, as mudanças nas bases técnicas e de gestão do
trabalho implicam a exigência de adesão subjetiva do trabalhador aos valores da
empresa. A Educação Corporativa passa a ter, então, a função de promover esta
adesão. Sob a justificativa de oferecer a formação intelectual e técnica
supostamente exigida pelo mercado, de modo, segundo o capital, “mais eficiente
que o Estado”, a Educação Corporativa
avança sobre a dimensão ético-política, impondo os modos de ser, pensar,
agir e sentir convenientes ao capital.
Denomina-se Educação
Corporativa o projeto em seu sentido amplo e são designadas como “Universidades
Corporativas” ou “Unidades de Educação Corporativa”, as instâncias formais
especialmente destinadas pelas empresas a este fim. Uma empresa pode, ainda,
desenvolver ações de Educação Corporativa por meio de programas dispersos,
mesmo sem ostentar uma Universidade Corporativa ou setor específico para este
fim. Igualmente, uma Universidade Corporativa pode desenvolver programas em
todos os níveis de ensino, não necessariamente a Educação Superior, podendo,
ainda desenvolver cursos livres ou atividades formativas informais.
Quando atua no âmbito
da educação formal, a Universidade Corporativa, não possuindo credenciamento
para certificar e emitir diplomas, institui parcerias com escolas e
universidades acadêmicas. Nestes casos, a instituição credenciada fornece sua
chancela a um projeto que nasce exatamente da desqualificação da formação
acadêmica oficial. Uma das demandas do movimento de Educação Corporativa,
representado pela ABEC (Associação Brasileira de Educação Corporativa) é o
poder de certificação pelo mercado. Até o momento, no Brasil, esta demanda não
foi aceita. Caso seja aprovada, constituirá um fator de agravamento da
subordinação do trabalho ao capital, visto que, ao ser certificado, por
exemplo, em um curso de graduação em Nutrição emitido por uma determinada
indústria de alimentos, esse trabalhador tem sua capacidade de venda da força
de trabalho limitada àquela empresa e à sua tecnologia. A Universidade do
Hambúrguer, como é denominada a universidade corporativa da Rede McDonalds,
caso obtivesse no Brasil a autorização para certificar em seu próprio nome,
emitindo um diploma vinculado à própria marca, restringiria a liberdade formal
de venda da força de trabalho de seus egressos às redes concorrentes.
O público-alvo da
Educação Corporativa é “toda a cadeia de valor”, incluindo, além dos
trabalhadores, os fornecedores, a comunidade e os consumidores reais e
potenciais, o que resulta numa ameaça ainda mais abrangente quanto aos danos
políticos de um projeto de formação diretamente controlado pelo mercado.
Alegando “responsabilidade social”, muitas vezes com financiamento público
direto ou indireto (quando obtém isenção fiscal como contrapartida), o capital
estende suas ações “pedagógicas” e alcança
um triplo objetivo: controlar a formação de trabalhadores, elevar seu capital
de marca ( a valorização de sua imagem junto à sociedade majora o valor das
ações no mercado financeiro e, via de regra, constitui exigência dos
investidores para adquirir tais papéis) e obtém vantagem na disputa de
hegemonia, pela difusão de sua visão de mundo para a empresa e além de seus
muros.
Segundo Èboli[i],
são sete os princípios da Educação Corporativa: Competitividade, Conectividade,
Parceria, Perpetuidade, Cidadania, Sustentabilidade, Disponibilidade.
São princípios
convenientes ao capital e à reprodução de seu modo de produção da existência e
não poderiam ter outro significado, dada sua filiação direta ao mercado. São,
portanto, incongruentes com um modelo de educação que se coloque em perspectiva
emancipatória. Os sentidos atribuídos a tais princípios pela literatura que
fundamenta o modelo denotam a perspectiva ideológica da classe dominante.
·
O princípio da competitividade, a
priori, já seria inadequado a um projeto de formação humana, por ser oposto à ideia
de universalidade. Agrava-se ao definir-se pelo alinhamento do currículo,
diretrizes e práticas às estratégias de
negócio. A ação educativa consiste, por este princípio, em criar nos
trabalhadores e na sociedade o conformismo ético-psíquico para a adesão a um
modelo de gestão pautado na competição e individualização das
responsabilidades, fragmentação das redes de solidariedade de classe e
obstrução da construção da consciência coletiva. Éboli recomenda, neste
princípio, favorecer a implantação do Modelo de Gestão por Competências.
Aconselha, ainda, a conceber programas educacionais a partir do mapeamento e
alinhamento de competências – empresariais e humanas.
·
Conectividade: Integração entre Educação
Corporativa e Gestão do Conhecimento. O sistema de gestão do conhecimento envolve
atividades de pesquisa e difusão de competências e tecnologias adequadas á
produção. Inclui a captura do conhecimento tácito e do conhecimento explícito
do trabalhador e sua “entrega” à organização, o que, segundo Ricardo [ii],
significa “agregar valor”. Isto ocorre quando o conceito de pesquisa refere-se
à pesquisa informal nas situações cotidianas de trabalho e a participação em
círculos de qualidade ou em projetos de “soluções para melhorias contínuas”,
nos moldes toyotistas de participação intensificadora. Ainda no ciclo de gestão
do conhecimento, o termo “pesquisa” pode referir-se às atividades formais de
produção científica por meio de centros de pesquisa e inovação tecnológica
desenvolvidos diretamente pelo capital ou por meio de sua ingerência (as
“parcerias) sobre as universidades acadêmicas. Representa subordinação,
controle e apropriação do fazer científico às necessidades do capital.
·
Parceria: É o
princípio segundo o qual a empresa firma contratos de colaboração com instituições
educacionais formais para certificação e ou para desenvolvimento científico e
tecnológico. Neste caso, a escola ou universidade formata uma proposta
curricular e/ou de pesquisa a partir das estratégias de negócios da empresa.
Este princípio diz respeito ainda à cultura de colaboração interna (a ideologia
colaboracionista capital-trabalho), que pode ser lida criticamente como uma
estratégia de hegemonia que consiste na produção de uma consciência pactualista
e desmobilizadora das lutas sociais.
·
Perpetuidade. È a transmissão da herança cultural
da empresa para além de seus muros e do seu tempo, segundo Éboli. A perenização
de seus valores e sua extensão às outras dimensões da vida social.
·
Cidadania. Aqui afirma-se o conceito de cidadania
corporativa ou cidadania empresarial. É a extensão do ethos do capital para toda a cadeia de valor e sociedade, consagrando o mercado e seus
princípios como os norteadores da vida social.
Envolve, além da assimilação strictu-sensu da cultura organizacional, o
comprometimento do trabalhador com ações de responsabilidade social da empresa,
visando aos ganhos de capital.
·
Sustentabilidade. Este princípio assegura, na
infindável criatividade acumuladora do capital, que, além de representar os
ganhos financeiros e ideológicos já mencionados, o setor de Educação
Corporativa torne-se um dos ramos de negócios lucrativos ou “auto-sustentáveis”
da empresa, pela capacidade de gerar receita direta. Por meio de cobrança de
matrículas e mensalidades, seja pela obtenção de financiamento e bolsas.
·
Disponibilidade. É a capacidade de “aprender e ensinar em qualquer tempo e
qualquer lugar”, segundo Éboli. Representa o devassamento do tempo livre do
trabalhador na busca por conhecimentos e competências referentes à valorização
do capital. A literatura recomenda que as atividades de Educação Corporativa
sejam realizadas na modalidade de ensino a distância (EAD).
Segundo
Meister[iii], “A Universidade
Corporativa (UC) é um guarda-chuva estratégico
para desenvolver e educar
funcionários, clientes, fornecedores e comunidade, a fim de cumprir as estratégias empresariais da
organização. O modelo
de UC é baseado em competências e interliga aprendizagem
às necessidades estratégicas de
negócios. O conceito
de Educação Corporativa surge diretamente relacionado à estratégia de negócios”
“Educação
Corporativa é um sistema de formação de pessoas
pautado por uma gestão de pessoas com
base em competências,
devendo instalar e desenvolver nos colaboradores (internos e externos) as
competências consideradas críticas para a viabilização das estratégias de negócio, promovendo um
processo de aprendizagem ativo vinculado
aos propósitos, valores, objetivos e metas empresariais” (Éboli, id. p.181 ...).
Para melhor assegurar a
sintonia entre a estratégia de negócios e a Educação Corporativa, incluindo os
aspectos atitudinais desejados no “novo trabalhador”, a literatura recomenda
que os docentes não sejam “professores profissionais”, mas homens de negócios e
funcionários bem-sucedidos da própria empresa.
Particularmente na esfera do agronegócio, já que estamos
abordando neste Dicionário a Educação no
Campo, observam-se muitos programas fundamentados na concepção ambiental e de
produção congruente com os interesses do capital. Muitos são os conglomerados
vinculados à produção agropecuária ou de mineração e seus derivados, em atividade no Brasil, que
desenvolvem atividades de Educação Corporativa.
A descaracterização dos movimentos sociais, a ideologia pactualista que
desqualifica a ação das lutas no campo e na cidade, são traços deste projeto
que vem penetrando no território da formação humana, representando antagonismo
à sua perspectiva contra-hegemônica.
A
Vale, um dos grupos econômicos de maior expressão no Brasil e com significativa
inserção no campo, seja diretamente, por
meio das atividades de extração, transporte ferroviário de carga e passageiros,
seja indiretamente, por meio de empresas de diversos ramos sobre as quais
possui influência e controle acionário, seja ainda por meio de parcerias,
desenvolve, através de sua universidade corporativa – a Valer, diversas
ações de caráter hegemônico. Tem forte atuação no campo, especialmente no Pará,
justamente onde as lutas sociais são expressivas.
A consolidação da hegemonia requer a atenuação dos conflitos
sociais e a imposição de uma concepção de mundo que atenda aos interesses do
capital. As universidades corporativas desempenham este papel, como já visto.
No caso da VALER, podemos citar alguns exemplos de sua ofensiva
político-cultural-ideológica nas comunidades onde atua, tanto na cidade quanto
no campo: Vale Ambiente; Vale Capacitação; Vale Educação Inclusiva (Itabira,
Santa Maria de Itabira e São Gonçalo do Rio Abaixo, em MG); Vale Educação
Profissional (sul do Pará); Escola que Vale; Educação nos Trilhos; Canal Futura
(parceria com a Rede Globo de Televisão); Voluntários Vale; Olha o Trem, Lá Vem
o Trem; Educação Ambiental;Tecendo o saber; Estação da Cidadania; PEAS VALE
(Programa de Educação Afetivo-sexual); Educação de Jovens e Adultos (no Pará -
parceria com o SESI).
Por
meio do Vale Ambiente, a empresa atinge professores da rede pública em regiões
onde tem interesses, por meio de parcerias com prefeituras, especialmente no
interior da Bahia e de Minas Gerais.
No
Vale do Itacaiúnas, Pará (Paraupebas, Canaã, Carajás), a Valer forma técnicos
em mineração, agropecuária, gestão empresarial e outras atividades referentes
ao trabalho no campo.
A
Escola que Vale, com a função de capacitação de professores das redes públicas,
atua no interior do Pará, Espírito Santo, Maranhão e Minas Gerais.
O
Vale Alfabetizar dirige-se a trabalhadores do interior dos estados citados
acima, além do Sergipe.
Educação
nos Trilhos tem como objetivo declarado construir ambientes promotores da
cidadania nas comunidades no entorno das Estradas de Ferro Vitória-Minas e
Carajás. Entre as ações deste programa, constam os “Projetos Especiais de
Mobilização Comunitária”, voltados para as comunidades afetadas pela ação da
Vale. Desta forma, a empresa busca o controle sobre suas formas de mobilização.
O
programa “Estação da Cidadania” inclui uma sala de projeção onde são veiculados
filmes sobre mineração.
“Olha
o Trem, Lá Vem o Trem” é um projeto que consiste em ações educativas voltadas à
redução ou extinção de ações denominadas pela empresa como “vandalismo” nas
estações ferroviárias e ao longo dos trilhos.
Como se estende à comunidade em geral e tem parcerias com as secretarias
de educação, a VALER já prepara “corações e mentes” para uma convivência
pacífica e dócil com as ferrovias do Grupo Vale e com os danos sociais e
ambientais provocados pela ação da corporação.
Registre-se
que, com a privatização da Rede Ferroviária Federal, grande parte da malha
ferroviária brasileira foi adquirida pelo Grupo Vale, sob nomes diferentes,
como a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). Como ocorre frequentemente no processo
capitalista de fusões, aquisições e concentração do capital, inicialmente a
marca controladora é omitida do grande público e vai sendo exposta
gradativamente. Sendo assim, a VALE é a organização oficial sob marcas como a
FCA.
A
VALER, apresentada aqui a título de exemplo, cumpre, em termos de abrangência,
todo o escopo das universidades corporativas: atua tanto na formação de seus
trabalhadores, quanto em toda a cadeia de valor: clientes, fornecedores,
comunidade do entorno das regiões afetadas e a sociedade em geral. Atua tanto
na educação formal, como na não-formal e na informal. Desenvolve atividades
presenciais e à distância. Envolve, como preconizam os mentores do modelo de
educação corporativa, sua própria força de trabalho em muitos dos projetos e
programas, transformando-os em “educadores da sociedade” e disseminadores de
uma “visão positiva” da empresa. Isto configura uma forma adicional de extração
de mais-valia. Na medida em que contribuem para gerar “capital de marca”, os
trabalhadores, que já geravam valor por meio de sua produção direta, são
coagidos a se dispor a mais esta forma de exploração. O “capital de marca” é uma das dimensões do “capital intelectual”
que influi diretamente no valor dos papéis no mercado financeiro: consiste em
reconhecimento público da marca como valor positivo e bom relacionamento com a
comunidade, ausência de conflitos sociais.
A lógica utilitarista e a função
hegemônica da Educação Corporativa, claras em seus princípios e em toda a
literatura que a sustenta, representa um modelo incompat~ivel com a perspectiva
emancipatória e com o fortalecimento da classe trabalhadora nas lutas sociais.
Para saber mais (bibliografia crítica)
RAMOS, Giovane e
SANTOS, Aparecida Tiradentes. “Valer (vá ler?): formação de trabalhadores sob a
ideologia do mercado na universidade corporativa da Vale”. In: Revista
Trabalho, Educação e Saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV. Vol 6, n 2, jul-out
2006.
RAMOS,
Giovane Saionara. “Um novo espaço de conformação profissional: a Universidade
Corporativa da Vale do Rio Doce – VALER- e a legitimação da apropriação da
subjetividade do trabalhador”. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz,
Programa de Pós-Graduação em Ensino de
Biociências e Saúde, 2007. Dissertação de Mestrado. Orientadora: Aparecida
Tiradentes.
RIBEIRO, Nayla C.F. “A Educação
Profissional em Saúde em um setor de Educação Corporativa: criação de monstros
áridos de olhos ágeis e mãos firmes?”. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz,
Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional em Saúde. 2010. Dissertação
de Mestrado. Orientadora: Aparecida Tiradentes
SANTOS,
Aparecida Tiradentes; SANTOS, Carla; RIBEIRO, Nayla; ALMEIDA, Thalita.
“Formação de trabalhadores no modelo de educação corporativa”. In: EPSJV (org)
, PEREIRA, Isabel e RIBEIRO, Cláudio (coord). Estudos de Politecnia e Saúde.
Vol. 2. Rio de Janeiro: EPSJV, 2007.
SANTOS,
Aparecida Tiradentes e RIBEIRO, Nayla. “Formação de trabalhadores no modelo de
educação corporativa: homens ou máquinas?” In: Revista Educação Profissional:
Ciência e Tecnologia. Brasília: SENAC-DF. Vol 3, n 1, jul-dez 2008.
SANTOS,
Aparecida Tiradentes e RIBEIRO, Nayla. “Educação Corporativa”. Verbete In:
Dicionário de Educação Profissional em Saúde. Rio de Janeiro: EPSJV, 2009.
[1]
Aparecida de Fátima Tiradentes dos
Santos: Pesquisadora Adjunta na Fundação Oswaldo Cruz- FIOCRUZ. Doutora em
Educação.
[i] Éboli, Marisa. Educação Corporativa no Brasil.
Mitos e verdades. São Paulo: Ed Gente, 2004, p. 181
[ii] Ricardo, Eleonora. Educação Corporativa e Educação
a Distância Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005;
[iii] Meister,
J. Educação Corporativa: a gestão do capital intelectual através das
universidades corporativas. São Paulo:
Pearson Makron Books, 1999, p. 29