quarta-feira, 26 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO CORPORATIVA VERBETE 2


Educação  Corporativa
 

Aparecida Tiradentes[1]

publicado como verbete do Dicionário da Educação no Campo, org por Caldart, Roseli 2012)

Modelo de formação onde a empresa ocupa o lugar da escola, desenvolvendo programas de educação formal, informal e não-formal de trabalhadores, fornecedores e a comunidade, visando ao aumento de produtividade,  valorização do capital de marca e como estratégia hegemônica de difusão da concepção de mundo da classe dominante.

Surgiu na década de 1950 nos Estados Unidos, com o objetivo de treinar os trabalhadores de algumas indústrias, mas adquire maior expressão no contexto neoliberal. Por um lado, a ideologia de desqualificação do Estado social  enseja que o capital se declare “mais competente” para formar os trabalhadores. Por outro lado, as mudanças nas bases técnicas e de gestão do trabalho implicam a exigência de adesão subjetiva do trabalhador aos valores da empresa. A Educação Corporativa passa a ter, então, a função de promover esta adesão. Sob a justificativa de oferecer a formação intelectual e técnica supostamente exigida pelo mercado, de modo, segundo o capital, “mais eficiente que o Estado”, a Educação Corporativa  avança sobre a dimensão ético-política, impondo os modos de ser, pensar, agir e sentir convenientes ao capital.

Denomina-se Educação Corporativa o projeto em seu sentido amplo e são designadas como “Universidades Corporativas” ou “Unidades de Educação Corporativa”, as instâncias formais especialmente destinadas pelas empresas a este fim. Uma empresa pode, ainda, desenvolver ações de Educação Corporativa por meio de programas dispersos, mesmo sem ostentar uma Universidade Corporativa ou setor específico para este fim. Igualmente, uma Universidade Corporativa pode desenvolver programas em todos os níveis de ensino, não necessariamente a Educação Superior, podendo, ainda desenvolver cursos livres ou atividades formativas informais.

Quando atua no âmbito da educação formal, a Universidade Corporativa, não possuindo credenciamento para certificar e emitir diplomas, institui parcerias com escolas e universidades acadêmicas. Nestes casos, a instituição credenciada fornece sua chancela a um projeto que nasce exatamente da desqualificação da formação acadêmica oficial. Uma das demandas do movimento de Educação Corporativa, representado pela ABEC (Associação Brasileira de Educação Corporativa) é o poder de certificação pelo mercado. Até o momento, no Brasil, esta demanda não foi aceita. Caso seja aprovada, constituirá um fator de agravamento da subordinação do trabalho ao capital, visto que, ao ser certificado, por exemplo, em um curso de graduação em Nutrição emitido por uma determinada indústria de alimentos, esse trabalhador tem sua capacidade de venda da força de trabalho limitada àquela empresa e à sua tecnologia. A Universidade do Hambúrguer, como é denominada a universidade corporativa da Rede McDonalds, caso obtivesse no Brasil a autorização para certificar em seu próprio nome, emitindo um diploma vinculado à própria marca, restringiria a liberdade formal de venda da força de trabalho de seus egressos às redes concorrentes.

O público-alvo da Educação Corporativa é “toda a cadeia de valor”, incluindo, além dos trabalhadores, os fornecedores, a comunidade e os consumidores reais e potenciais, o que resulta numa ameaça ainda mais abrangente quanto aos danos políticos de um projeto de formação diretamente controlado pelo mercado. Alegando “responsabilidade social”, muitas vezes com financiamento público direto ou indireto (quando obtém isenção fiscal como contrapartida), o capital estende suas ações “pedagógicas” e  alcança um triplo objetivo: controlar a formação de trabalhadores, elevar seu capital de marca ( a valorização de sua imagem junto à sociedade majora o valor das ações no mercado financeiro e, via de regra, constitui exigência dos investidores para adquirir tais papéis) e obtém vantagem na disputa de hegemonia, pela difusão de sua visão de mundo para a empresa e além de seus muros.

Segundo Èboli[i], são sete os princípios da Educação Corporativa: Competitividade, Conectividade, Parceria, Perpetuidade, Cidadania, Sustentabilidade, Disponibilidade.

São princípios convenientes ao capital e à reprodução de seu modo de produção da existência e não poderiam ter outro significado, dada sua filiação direta ao mercado. São, portanto, incongruentes com um modelo de educação que se coloque em perspectiva emancipatória. Os sentidos atribuídos a tais princípios pela literatura que fundamenta o modelo denotam a perspectiva ideológica da classe dominante.

·                     O princípio da competitividade, a priori, já seria inadequado a um projeto de formação humana, por ser oposto à ideia de universalidade. Agrava-se ao definir-se pelo alinhamento do currículo, diretrizes e práticas  às estratégias de negócio. A ação educativa consiste, por este princípio, em criar nos trabalhadores e na sociedade o conformismo ético-psíquico para a adesão a um modelo de gestão pautado na competição e individualização das responsabilidades, fragmentação das redes de solidariedade de classe e obstrução da construção da consciência coletiva. Éboli recomenda, neste princípio, favorecer a implantação do Modelo de Gestão por Competências. Aconselha, ainda, a conceber programas educacionais a partir do mapeamento e alinhamento de competências – empresariais e humanas.

·                     Conectividade: Integração entre Educação Corporativa e Gestão do Conhecimento. O sistema de gestão do conhecimento envolve atividades de pesquisa e difusão de competências e tecnologias adequadas á produção. Inclui a captura do conhecimento tácito e do conhecimento explícito do trabalhador e sua “entrega” à organização, o que, segundo Ricardo [ii], significa “agregar valor”. Isto ocorre quando o conceito de pesquisa refere-se à pesquisa informal nas situações cotidianas de trabalho e a participação em círculos de qualidade ou em projetos de “soluções para melhorias contínuas”, nos moldes toyotistas de participação intensificadora. Ainda no ciclo de gestão do conhecimento, o termo “pesquisa” pode referir-se às atividades formais de produção científica por meio de centros de pesquisa e inovação tecnológica desenvolvidos diretamente pelo capital ou por meio de sua ingerência (as “parcerias) sobre as universidades acadêmicas. Representa subordinação, controle e apropriação do fazer científico às necessidades do capital.

·                     Parceria: É o princípio segundo o qual a empresa firma contratos de colaboração com instituições educacionais formais para certificação e ou para desenvolvimento científico e tecnológico. Neste caso, a escola ou universidade formata uma proposta curricular e/ou de pesquisa a partir das estratégias de negócios da empresa. Este princípio diz respeito ainda à cultura de colaboração interna (a ideologia colaboracionista capital-trabalho), que pode ser lida criticamente como uma estratégia de hegemonia que consiste na produção de uma consciência pactualista e desmobilizadora das lutas sociais.

·                     Perpetuidade. È a transmissão da herança cultural da empresa para além de seus muros e do seu tempo, segundo Éboli. A perenização de seus valores e sua extensão às outras dimensões da vida social.

·                     Cidadania. Aqui afirma-se o conceito de cidadania corporativa ou cidadania empresarial. É a extensão do ethos do capital para toda a cadeia de valor e  sociedade, consagrando o mercado e seus princípios como os norteadores da vida social.  Envolve, além da assimilação strictu-sensu da cultura organizacional, o comprometimento do trabalhador com ações de responsabilidade social da empresa, visando aos ganhos de capital.

·                     Sustentabilidade. Este princípio assegura, na infindável criatividade acumuladora do capital, que, além de representar os ganhos financeiros e ideológicos já mencionados, o setor de Educação Corporativa torne-se um dos ramos de negócios lucrativos ou “auto-sustentáveis” da empresa, pela capacidade de gerar receita direta. Por meio de cobrança de matrículas e mensalidades, seja pela obtenção de financiamento e bolsas.

·                     Disponibilidade. É a capacidade de  “aprender e ensinar em qualquer tempo e qualquer lugar”, segundo Éboli. Representa o devassamento do tempo livre do trabalhador na busca por conhecimentos e competências referentes à valorização do capital. A literatura recomenda que as atividades de Educação Corporativa sejam realizadas na modalidade de ensino a distância (EAD).

 

Segundo Meister[iii], “A Universidade Corporativa (UC) é um guarda-chuva estratégico para desenvolver e educar funcionários, clientes, fornecedores e comunidade, a fim de cumprir as estratégias empresariais da organização. O modelo  de UC é baseado em competências e interliga aprendizagem às necessidades estratégicas de negócios. O conceito  de Educação Corporativa surge diretamente  relacionado à estratégia de negócios”

“Educação Corporativa é um sistema de formação de pessoas  pautado por uma gestão de pessoas com  base em competências, devendo instalar e desenvolver nos colaboradores (internos e externos) as competências consideradas críticas para a viabilização das estratégias de negócio, promovendo um processo de aprendizagem ativo vinculado aos propósitos, valores, objetivos e metas empresariais” (Éboli, id. p.181 ...).

Para melhor assegurar a sintonia entre a estratégia de negócios e a Educação Corporativa, incluindo os aspectos atitudinais desejados no “novo trabalhador”, a literatura recomenda que os docentes não sejam “professores profissionais”, mas homens de negócios e funcionários bem-sucedidos da própria empresa.

Particularmente na esfera do agronegócio, já que estamos abordando  neste Dicionário a Educação no Campo, observam-se muitos programas fundamentados na concepção ambiental e de produção congruente com os interesses do capital. Muitos são os conglomerados vinculados à produção agropecuária ou de mineração  e seus derivados, em atividade no Brasil, que desenvolvem atividades de Educação Corporativa.  A descaracterização dos movimentos sociais, a ideologia pactualista que desqualifica a ação das lutas no campo e na cidade, são traços deste projeto que vem penetrando no território da formação humana, representando antagonismo à sua perspectiva contra-hegemônica.

            A Vale, um dos grupos econômicos de maior expressão no Brasil e com significativa inserção no campo, seja diretamente,  por meio das atividades de extração, transporte ferroviário de carga e passageiros, seja indiretamente, por meio de empresas de diversos ramos sobre as quais possui influência e controle acionário, seja ainda por meio de parcerias, desenvolve, através de sua universidade corporativa – a Valer, diversas ações de caráter hegemônico. Tem forte atuação no campo, especialmente no Pará, justamente onde as lutas sociais são expressivas.

            A consolidação da  hegemonia requer a atenuação dos conflitos sociais e a imposição de uma concepção de mundo que atenda aos interesses do capital. As universidades corporativas desempenham este papel, como já visto. No caso da VALER, podemos citar alguns exemplos de sua ofensiva político-cultural-ideológica nas comunidades onde atua, tanto na cidade quanto no campo: Vale Ambiente; Vale Capacitação; Vale Educação Inclusiva (Itabira, Santa Maria de Itabira e São Gonçalo do Rio Abaixo, em MG); Vale Educação Profissional (sul do Pará); Escola que Vale; Educação nos Trilhos; Canal Futura (parceria com a Rede Globo de Televisão); Voluntários Vale; Olha o Trem, Lá Vem o Trem; Educação Ambiental;Tecendo o saber; Estação da Cidadania; PEAS VALE (Programa de Educação Afetivo-sexual); Educação de Jovens e Adultos (no Pará - parceria com o SESI).

            Por meio do Vale Ambiente, a empresa atinge professores da rede pública em regiões onde tem interesses, por meio de parcerias com prefeituras, especialmente no interior da Bahia e de Minas Gerais.

            No Vale do Itacaiúnas, Pará (Paraupebas, Canaã, Carajás), a Valer forma técnicos em mineração, agropecuária, gestão empresarial e outras atividades referentes ao trabalho no campo.

            A Escola que Vale, com a função de capacitação de professores das redes públicas, atua no interior do Pará, Espírito Santo, Maranhão e Minas Gerais.

            O Vale Alfabetizar dirige-se a trabalhadores do interior dos estados citados acima, além do Sergipe.

            Educação nos Trilhos tem como objetivo declarado construir ambientes promotores da cidadania nas comunidades no entorno das Estradas de Ferro Vitória-Minas e Carajás. Entre as ações deste programa, constam os “Projetos Especiais de Mobilização Comunitária”, voltados para as comunidades afetadas pela ação da Vale. Desta forma, a empresa busca o controle sobre suas formas de mobilização.

            O programa “Estação da Cidadania” inclui uma sala de projeção onde são veiculados filmes sobre mineração.

            “Olha o Trem, Lá Vem o Trem” é um projeto que consiste em ações educativas voltadas à redução ou extinção de ações denominadas pela empresa como “vandalismo” nas estações ferroviárias e ao longo dos trilhos.  Como se estende à comunidade em geral e tem parcerias com as secretarias de educação, a VALER já prepara “corações e mentes” para uma convivência pacífica e dócil com as ferrovias do Grupo Vale e com os danos sociais e ambientais provocados pela ação da corporação.

            Registre-se que, com a privatização da Rede Ferroviária Federal, grande parte da malha ferroviária brasileira foi adquirida pelo Grupo Vale, sob nomes diferentes, como a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). Como ocorre frequentemente no processo capitalista de fusões, aquisições e concentração do capital, inicialmente a marca controladora é omitida do grande público e vai sendo exposta gradativamente. Sendo assim, a VALE é a organização oficial sob marcas como a FCA.

            A VALER, apresentada aqui a título de exemplo, cumpre, em termos de abrangência, todo o escopo das universidades corporativas: atua tanto na formação de seus trabalhadores, quanto em toda a cadeia de valor: clientes, fornecedores, comunidade do entorno das regiões afetadas e a sociedade em geral. Atua tanto na educação formal, como na não-formal e na informal. Desenvolve atividades presenciais e à distância. Envolve, como preconizam os mentores do modelo de educação corporativa, sua própria força de trabalho em muitos dos projetos e programas, transformando-os em “educadores da sociedade” e disseminadores de uma “visão positiva” da empresa. Isto configura uma forma adicional de extração de mais-valia. Na medida em que contribuem para gerar “capital de marca”, os trabalhadores, que já geravam valor por meio de sua produção direta, são coagidos a se dispor a mais esta forma de exploração. O “capital de marca” é uma das dimensões do “capital intelectual” que influi diretamente no valor dos papéis no mercado financeiro: consiste em reconhecimento público da marca como valor positivo e bom relacionamento com a comunidade, ausência de conflitos sociais.

A lógica utilitarista e a função hegemônica da Educação Corporativa, claras em seus princípios e em toda a literatura que a sustenta, representa um modelo incompat~ivel com a perspectiva emancipatória e com o fortalecimento da classe trabalhadora nas lutas sociais.

 

Para saber mais (bibliografia crítica)

RAMOS, Giovane e SANTOS, Aparecida Tiradentes. “Valer (vá ler?): formação de trabalhadores sob a ideologia do mercado na universidade corporativa da Vale”. In: Revista Trabalho, Educação e Saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV. Vol 6, n 2, jul-out 2006.

RAMOS, Giovane Saionara. “Um novo espaço de conformação profissional: a Universidade Corporativa da Vale do Rio Doce – VALER- e a legitimação da apropriação da subjetividade do trabalhador”. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz,

Programa de Pós-Graduação em Ensino de Biociências e Saúde, 2007. Dissertação de Mestrado. Orientadora: Aparecida Tiradentes.

RIBEIRO, Nayla C.F. “A Educação Profissional em Saúde em um setor de Educação Corporativa: criação de monstros áridos de olhos ágeis e mãos firmes?”. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional em Saúde. 2010. Dissertação de Mestrado. Orientadora: Aparecida Tiradentes

SANTOS, Aparecida Tiradentes; SANTOS, Carla; RIBEIRO, Nayla; ALMEIDA, Thalita. “Formação de trabalhadores no modelo de educação corporativa”. In: EPSJV (org) , PEREIRA, Isabel e RIBEIRO, Cláudio (coord). Estudos de Politecnia e Saúde. Vol. 2. Rio de Janeiro: EPSJV, 2007.

SANTOS, Aparecida Tiradentes e RIBEIRO, Nayla. “Formação de trabalhadores no modelo de educação corporativa: homens ou máquinas?” In: Revista Educação Profissional: Ciência e Tecnologia. Brasília: SENAC-DF. Vol 3, n 1, jul-dez 2008.

SANTOS, Aparecida Tiradentes e RIBEIRO, Nayla. “Educação Corporativa”. Verbete In: Dicionário de Educação Profissional em Saúde. Rio de Janeiro: EPSJV, 2009.

 

 



[1] Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos: Pesquisadora Adjunta na Fundação Oswaldo Cruz- FIOCRUZ. Doutora em Educação.
 



[i] Éboli, Marisa. Educação Corporativa no Brasil. Mitos e verdades. São Paulo: Ed Gente, 2004, p. 181
[ii] Ricardo, Eleonora. Educação Corporativa e Educação a Distância Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005;
[iii] Meister, J. Educação Corporativa: a gestão do capital intelectual através das universidades corporativas. São Paulo: Pearson Makron Books, 1999, p. 29
 

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