A TEORIA DO CAPITAL INTELECTUAL LEGITIMANDO
O CONFORMISMO PSICO-FÍSICO DO TRABALHADOR DE “NOVO TIPO”
Aparecida de
Fátima Tiradentes dos Santos
Resumo
Palavras-chave: Teoria do
Capital Intelectual- Formação de Trabalhadores- Estado- Neoliberalismo
A
centralidade do tema educação no discurso do capital nas duas últimas décadas,
organizada particularmente a partir da conferência de Jomtien, poderia ser
interpretada como a retomada da Teoria do Capital Humano.
Nos últimos
anos temos nos dedicado ao tema, afirmando, pelo estudo da Teoria do Capital
Intelectual e suas relações de ruptura e conservação com a Teoria do Capital
Humano, que há mais do que uma retomada . Há uma relação dialética e a chave
para a compreensão desta continuidade/ruptura são as mudanças do papel do
Estado em suas relações com o capital e com o trabalho antes e a partir da
implantação das políticas neoliberais. Há elementos significativos na relação
Estado-capital-trabalho nos dois momentos que nos permitem fazer esta
afirmação.
Para tanto, apresentaremos os pressupostos da
Teoria do Capital Intelectual (TCI) e sua relação com a Teoria do Capital Humano, analisaremos
o papel da TCI como base ideológica para o projeto pedagógico corporativo, a
partir do conceito gramsciano de ideologia, problematizando os limites deste
modelo para a formação humana integral.
A
Teoria do Capital Humano (TCH) tem seu maior representante na figura do
economista Theodore Schultz, destacado intelectual da escola de Chicago, que
chega a merecer em 1979 o Prêmio Nobel de Economia. Outro intelectual dedicado
à mesma Teoria, Gary Becker, é também agraciado pelo mesmo Prêmio em 1990, o
que revela a reputação adquirida por esta construção teórica.
A concepção utilitarista da formação humana,
conseqüência em última instância de uma concepção utilitarista do próprio ser
humano, permite a esta teoria indagar sobre o valor material da educação na
cadeia produtiva, as taxas de retorno financeiro daí provenientes e as formas
de controle sobre tal investimento. Para os autores da TCH, a função da
educação consiste em desenvolver nos trabalhadores as qualidades necessárias a
seu desempenho no trabalho. Desta forma, todos os esforços educacionais devem se
concentrar no objetivo de preparar o trabalhador na justa medida da necessidade
do mercado, desprezando outros valores humanos.
O
princípio mais caro desse ideário reside na relação de proporção direta entre
escolaridade e renda, na causalidade mecânica entre o patrimônio escolar
individual e proventos salariais. Se é a escolaridade que determina a renda
individual e a produtividade da sociedade, então o papel dos planejadores de
políticas educacionais subordina-se à lógica produtivista do mercado: limita-se
a estabelecer projetos de formação racional e tecnicamente eficientes de modo a
atender as exigências do sistema produtivo.
O
conhecimento, fator de produção, é um bem (capital) agregado ao trabalhador.
Sendo este também possuidor de capital, o antagonismo e a luta de classes
perdem a razão de ser; pobreza e fracassos pessoais são decorrentes da falta de
mérito do indivíduo, da ausência de senso de oportunidade familiar e pessoal
nas escolhas vocacionais. Já no plano macroeconômico, os problemas são decorrentes
da ausência de investimentos corretos no sistema educacional. Essa relação
causal entre escolaridade e renda, para cuja determinação, segundo o tecnicismo
de mercado, não são considerados fatores políticos condicionantes da
distribuição de riquezas, ignora o caráter reprodutor da educação, considerando
apenas sua face produtora.
Para Schultz, o que explica a dinâmica das relações
econômicas é o capital menos constante, o capital humano. Perplexo pela omissão
desta forma de capital nos modelos explicativos do crescimento econômico que
dominavam a literatura econômica, considera que o conceito tradicional de
capital tem que ser ampliado. Educação como meio para formar capacidade
produtora passa a atuar, na relação capital-trabalho, como elemento paradoxalmente
agregado ao trabalhador (força de trabalho), pertencendo, entretanto, à esfera
do capital (propriedade dos meios de produção).
“Se
o coeficiente de todo capital em relação à renda permanece essencialmente
constante, então o crescimento econômico inexplicado, que tem sido de uma
presença tão perturbadora, tem a sua origem primordialmente a partir da
elevação do acervo do capital humano. (...) as capacitações econômicas do homem
são predominantemente um meio fabricado de produção e que, à exceção de alguma
renda pura (em rendimentos) para marcar as diferenças em capacitações herdadas,
a maioria das diferenças de rendimentos é uma diferença nos quantitativos que
foram investidos nas pessoas. (...)a estrutura dos ordenados e dos salários é
determinada primordialmente pelo investimento na escolarização, na saúde, no
treinamento no local de trabalho, na busca de informações acerca das
oportunidades de empregos, e pelo investimento na migração. (...)uma
distribuição mais eqüitativa de investimentos no homem igualiza os rendimentos
entre os agentes humanos (...) .” (SCHULTZ, 1973, 66)
O paradoxo não considerado por Becker e Schultz, dada
sua filiação ideológica liberal, ou seja, a incongruência da agregação do
“capital” à força de trabalho, logo apresenta-se como um problema para a classe
possuidora dos meios de produção: a duração desse capital é a duração da
própria vida útil do empregado, com alto grau de depreciação.
“Embora
o capital humano, como tal, não possa ser comprado nem vendido, é comparativamente
fácil estimar-se o valor dos serviços de produção deste capital, porquanto são
expressos em preços em termos de salários e de ordenados, no mercado de
trabalho.”(SCHULTZ,
1973,157)
Schultz adverte, então, que é necessário pensar na
longevidade do trabalhador, em políticas sanitárias, com o objetivo de
preservar o capital humano e torná-lo menos desvalorizado, advertindo ainda
quanto ao prejuízo sofrido pelo sistema produtivo na ocasião da aposentadoria,
quando o capital humano individual encontra seu grau maior de depreciação.
Finalmente, frente à dificuldade para alienar esse bem agregado à força de
trabalho, frente à impossibilidade de um grau total de controle, objetivação e
expropriação desse componente produtivo, apela-se ao indivíduo pela responsabilidade
em relação à construção desse capital e ao Estado pela responsabilidade na
execução.
É recorrente em Becker e em Schultz a reflexão sobre a
escolha ocupacional na esfera privada, familiar e individual, sendo, para
ambos, a avaliação dos retornos pecuniários o elemento motivador da escolha.
Cabe ao planejamento educacional, portanto, ocupar-se da explicitação das
possibilidades de retorno. A formação de capacidade produtiva deriva do acerto
das decisões individuais, da adequação do sistema escolar a tais escolhas e ao
conhecimento e atendimento, pelo sistema escolar, das reais necessidades do
mercado. Esse momento ainda conservava a ilusão da sociedade do pleno emprego e
do Bem-Estar Social e a bipolaridade política, que obrigava o capital a apresentar
uma face, mesmo precária, de proteção social, fazendo frente ao Estado
Socialista, com o incentivo a políticas públicas de educação. Essa face, no
entanto, é insuficiente para ocultar a lógica do modo de produção capitalista,
e torna-se inevitável que se estabeleça para o sistema escolar a função
supostamente integradora entre os dois pólos das relações de produção: capital
e trabalho, quando tal função se realiza pela subsunção dos conflitos de
classes e pela abdicação do papel da escola como espaço transformador.
Com a hegemonia das políticas neoliberais, a crise do
Socialismo Real e o surgimento do modelo de acumulação flexível, reemerge no
final da década de 1980 e nos anos 90 o discurso político da centralidade da
educação, que desta vez toma sua forma mais sistematizada na Teoria do Capital
Intelectual (TCI), tendo como principais representantes, Stewart, Sveiby,
Nonaka e Takeuchi. A hipótese com que vimos trabalhando é a de que há uma relação dialética de continuidade e
ruptura entre a Teoria do Capital Humano de Becker e Schultz e a Teoria do
Capital Intelectual.
Tratando-se de ideologias - no sentido gramsciano de concepção de mundo
orgânica a uma classe social e posta a serviço da construção ou manutenção da
hegemonia – que germinam no terreno das
relações sociais de produção capitalistas a partir da concepção dominante,
ambas consideram o ser humano unicamente como força de trabalho à disposição da
extração de mais-valia e, por conseguinte, a educação como meio para o
desenvolvimento das qualidades requeridas para este propósito. Este é o
elemento comum entre as duas teorias. Já a diversidade apresenta-se
especialmente na relação capital-Estado. Se a TCH surge no contexto do Estado
de Bem-estar Social, a TCI é contemporânea do neoliberalismo. Isto
inegavelmente implica em uma configuração ainda mais privatista e mercantil no
tocante ao que o capital espera da função educativa. No interior da TCH,
Schultz e Becker se inquietavam com o fato de que tão importante fator de
produção, o conhecimento, pertencesse ao indivíduo. Mesmo estando o trabalhador
submetido às perversas relações de produção capitalistas, ainda há o risco de
pontos de fuga e de perda de controle do
capital sobre o investimento em educação, sobre o conhecimento necessário ao trabalho.
O fato de não conseguir alcançar a expropriação desta dimensão do trabalho representava,
na TCH, motivo de constante perturbação, visto que, em última instância, um dia
o trabalhador morre, adoece, deixa de gerar o retorno do investimento, enfim, ocorre
a depreciação como visto acima. Se era, então, um investimento de risco, que o
Estado assumisse o papel de educador. Não podemos afirmar que o capital
aceitava este inconveniente sem queixas, visto que o Estado como mediador da
formação da força de trabalho também poderia representar riscos de fuga aos
propósitos de adestramento para o trabalho subordinado.
Com o desenvolvimento das chamadas novas tecnologias
da informação e da comunicação (TICs), tornou-se possível ao capital produzir
formas de objetivar, padronizar e expropriar o conhecimento do trabalhador,
deslocando-o para a esfera da “equipe”de trabalho. Daí toda a propaganda em
torno da idéia de que o “novo trabalhador”
precisa aprender a trabalhar em equipe, a dividir o que sabe, a disponibilizar
à organização, seus talentos e qualidades. Avançou-se ainda mais no propósito
de expropriação, quando o capital começa a desbravar o campo do conhecimento
tácito do trabalhador (FIDALGO, 1996), desfazendo a pessoalidade da relação
trabalhador- instrumentos e processos de trabalho. Despossuído de seu saber
tácito, o trabalhador torna-se apenas mais um, substituível, pois sua ausência
não acarretará em lacunas ou transtornos no processo produtivo. Zarifian (2001)
define conhecimento tácito como a capacidade do trabalhador de mobilizar
competências para lidar com eventos, ou seja, ocorrências imprevistas no
processo de trabalho, que requerem o saber desenvolvido com a experiência, ao contrário
do saber manifesto, já codificado em manuais de instruções, normas operacionais
etc. A possibilidade de transformar conhecimento tácito em conhecimento
manifesto é um avanço da classe hegemônica em relação à intensificação da
subordinação do trabalho ao capital. Nisto reside o sentido fundamental da TCI.
Note-se que a sutil mudança de terminologia, de capital humano para capital
intelectual representa o avanço da classe dirigente em seus propósitos de
objetivação, expropriação e controle do conhecimento.
De acordo com Nonaka e Takeuchi, novas formas de
gerenciamento, que eles associam ao modelo oriental (toyotismo), adotam a
exploração do conhecimento tácito e não do explícito, como no modelo
“ocidental” (fordismo). É na apropriação neofordista do saber tácito que reside
o ‘segredo’ da formação e preservação do capital intelectual.
Segundo Stewart, um dos principais formuladores da
TCI, o capital intelectual da empresa constitui-se por três componentes: o capital
humano, que consiste no conhecimento pertencente ao trabalhador individualmente;
o capital estrutural , constituído quando os saberes individuais dos
trabalhadores compõem o conjunto de conhecimentos objetivados, sistematizados e
padronizados pela organização, pertencentes agora à empresa; o terceiro componente
é o capital-cliente, ou capital de marca, cujo valor está relacionado ao
reconhecimento pela sociedade da marca da empresa e a associação dessa marca a elementos
positivos, gerando para a organização vantagem competitiva. O princípio
axiológico da TCI é a vantagem competitiva,
que é, também , o princípio educativo das universidades corporativas.
Stewart endossa a tese mundialmente difundida de que “a
informação e o conhecimento são as armas nucleares da nossa era. (Stewart, p.
XIII), armas estas em ação para gerar riquezas, segundo suas palavras. A TCI
omite, entretanto, que a geração de riquezas concorre para a intensificação da
extração de mais-valia e, conseqüentemente, para o aprofundamento da
concentração de renda, já que não vem acompanhada de propósitos igualitários”.
Todo o discurso
de produtividade e competitividade recorrente na TCI silencia sobre a
necessidade de justiça social, pois, dada a formação discursiva (ORLANDI, 1999)
que o enuncia, não seria de se esperar tal preocupação, Como emana de um
sujeito social que enuncia a partir da formação ideológica/discursiva de classe
do capital, é em nome de seus interesses que fala.
Ainda segundo Stewart, a propósito da gestão do
capital intelectual em função da produtividade:
“A
gerência dos ativos intelectuais se tornou a tarefa mais importante dos negócios
porque o conhecimento tornou-se o fator mais importante da produção(...)O
conhecimento tornou-se o principal ingrediente do que produzimos, fazemos,
compramos e vendemos. Resultado: administrá-lo – encontrar e estimular o
capital intelectual, armazená-lo, vendê-lo e compartilhá-lo – tornou-se a
tarefa econômica mais importante dos indivíduos, das empresas e dos países(...)O
investimento em educação corporativa gera economia com os ativos fixos,
tangíveis(...)
Organizações se desfazem de sedes, imóveis, maquinaria e equipamentos, em favor do capital intelectual.(...)Cada vez mais, as organizações terceirizam atividades operacionais e investem no controle do capital intelectual.(Id)
Organizações se desfazem de sedes, imóveis, maquinaria e equipamentos, em favor do capital intelectual.(...)Cada vez mais, as organizações terceirizam atividades operacionais e investem no controle do capital intelectual.(Id)
Stewart propõe como estratégias para a gestão do capital
intelectual, a produção, armazenamento e circulação eficiente do conhecimento
“necessário” à produção e, conforme já
adiantamos, a objetivação do
conhecimento tácito.
Quanto à questão da universalização da educação, o
autor não oculta a lógica excludente do capitalismo: “O objetivo não é incutir o mesmo conhecimento no máximo de mentes
possível, mas sim melhorar seu retorno sobre o capital intelectual.”
(STEWART)
Um dos pilares do modelo é
a ideologia – aqui no sentido marxiano de distorção da realidade - do determinismo
tecnológico e a suposta substituição da sociedade do trabalho pela idéia de
sociedade do conhecimento. Segundo seus ideólogos, a saída do paradigma
industrial para o paradigma do conhecimento, levou o empresariado a se ocupar
do conhecimento como fator de produção. Segundo Mundim e Ricardo (2004, p.04):
“... a competição
global, a evolução tecnológica e os
novos modelos de negócios estão, indispensavelmente, mudando a
organização social do trabalho, a forma
como nos relacionamos com o trabalho e a forma como gerimos nossos
recursos.”
Em Meister, encontra-se o mesmo apelo ao
desenvolvimento tecnológico e mudanças organizacionais como determinantes deste
projeto.
“Em essência são cinco [as forças que sustentam o movimento ]:
a emergência da organização não-hierárquica, enxuta e flexível; o advento e a consolidação
da “economia do conhecimento”; a redução do prazo de validade do conhecimento;
o novo foco na capacidade de empregabilidade/ocupabilidade para a vida toda em
lugar do emprego para vida toda; e uma mudança fundamental no mercado de educação
global.”(MEISTER, 1999, 1)
Segundo a ótica hegemônica, é na chamada "Sociedade
da Informação" que o processo de aquisição do conhecimento assume um papel
de destaque nas organizações e passa a exigir um profissional preparado para os
novos desafios do mercado de trabalho, desconsiderando os determinantes
políticos e macro-econômicos do desemprego. A difusão dessas concepções fez com
que a educação adquirisse centralidade no discurso apologético dos “novos” modelos
de produção do mercado globalizado.
Os conceitos de “
capitalismo cognitivo” e
(ver
referência) as teses de que, com a suposta
preponderância do trabalho imaterial (Negri e Lazzarato) estaríamos vivendo a
sociedade do conhecimento, têm tido ampla circulação e relação com o discurso
do capital sobre a Teoria do Capital Intelectual. Razão esta que nos traz
aqui a uma reflexão acwerca de tais
teses.
Negrei e Lazzarato examinam
a noção de trabalho imaterial na base tecnológica dos novos paradigmas produtivos.
Asseguram que , nas atuais forams de trabalho, exige-se do trabalhador, cada
vez mais intelectualizado, ccapacidade de escolha e de toamda de dedcisões, já
QUE “ (...)é a alma do operáio que deve
descer à oficina. É a sua personalidade, a sua subjetividade, que deve ser
organziada e comandada. Qualidade e quantidade do trabalho são reorganizadas em
torno de sua imaterialidade.” (Negri
e Lazzarato, 2003 p. 25). Para os operaistas, nessa modalidade as categorias
clássicas do marxismo perderiam seu valor explicativo. Não aprrendem, no atual
modelo técnico de organização do trabalho novas formas de expropriação.
Ressaltam , ao ocntrário, traços de humanização, autonimia e independência.
Otimistas em relação ‘humanização’ das ‘novas” realções sociais no capitalismo
ocntemporâneo, identificam na realização do trabalho imaterial, uyma estrutura
diferenciada daquelas baseadas na extração de mais-valia. “ (...) o ciclo do
trabalho imaterial é pré-constituído por uma força de trabalho social e
autônoma, capaz de organizar o próprio trabalho e as próprias relações com a
mepresa e com a formação de uma “ intelctualidade de massa. Afinados com os
ideólogos neo-conservadores dos tempos atuais, Negri e Lazzarato afirmam que,
sendo o conhecimento o novo fator de produção essencial, a categoria trabalho
perde sua centralidade analítica. A expropriação, a extração de mais-valia não
maisu se afirma como intrínseca às relaçõesd socviais de produção capitalistas.
Naquela literatura, a subordinação do trabalho ao capital desloca-se para as
subjetividades, onde se vislumbram independêncai e autonomia. Segundo a obra
aqui analisqada, as atuais relações de produção não mais subordinam o trabalho.
O conhecimento é o elemento mágico que anula a exploração. Esquecem-se de que
tal “ fator de produção” não pertence ao trabalhador social autônomo e mais
“intelectualizado”, que o venderá livremnte imune às forças do mercado e ileso
frente ao projeto de expropriação, padronização e coletivização dos saberes.
Isto OCORRE, segundo Stewart, QUANDO o capital humano passa a ser capital
estrutural, ou seja, não mais pertencendo ao individuo, mas à equipe/ empresa.
Este seria, para a TCI, o grande salto da TCH para as necessidades atuais do
mercado.
Se buscarmso em Gramsci
“As forças produtivas e as relações sociais – simples fases do
desenvolvimento, diferentes do indivíduo social- aparecem unicamente para o capital como meios para produzir a
aprtir de sua estreita base.” (Marx apud Castillo, 2001)
“ Nos Grundrisse, Marx assinala em referência à
ciência que ‘a acumulação do saber, da habilidade, assim como de todas as
forças produtivas gerais da inteligência social, são agora absorvidas pelo
capital que se opõe ao trabalho: elas aparentam ser uma propriedade do capital
ou, mais exatamente, capuital fixo.” (Marx apud Castillo, 2001)
A
Teoria do Capital Humano e a Teoria do Capital Intelectual são, como faces da
mesma moeda, ao mesmo tempo iguais e diferentes: são iguais em sua lógica
instrumental, nas relações de produção fundadas no antagonismo que lhes são
subjacentes e são diferentes porque a expropriação na TCI é mais violenta, pela
alienação daquilo que, até então, era considerado inalienável: o saber. A
mudança de humano para intelectual denuncia esse processo de alienação: não é
mais o homem, o capital, mas sua parte “útil”, que pode ser expropriada. O uso
da terminologia “intelectual” denota maior objetivação do que o uso da
terminologia “humano”, que remete à
integralidade do ser.
Na
formulação da Teoria do Capital Humano, o discurso hegemônico apelava para a
idéia de aumento da renda nacional, daí o chamado ao Estado. Já no
Neoliberalismo, o apelo é à competitividade global, conduzindo à nomeação da
empresa como agente de educação.
Recorremos
ao conceito de restauração elaborado por Gramsci (SANTOS, 2000) em
contraposição ao conceito de revolução, quando afirma que a revolução
caracteriza-se pela substituição de uma classe social por outra na condição
hegemônica, onde as mudanças na base técnico-gerencial do sistema produtivo,
caracterizadas pela substituição de uma fração de classe por outra, não são
consideradas revolucionárias, mas sim a restauração da hegemonia da classe
dominante. Neste sentido, sendo o Neoliberalismo a restauração da hegemonia
capitalista, as ideologias orgânicas que lhe possibilitam a “cimentação”,
segundo a terminologia gramsciana, são ações restauradoras, legitimadoras da
antiga ordem. A racionalidade utilitarista e dualista é a mesma, mas a
metodologia dialética nos impõe a busca de espaços contraditórios e complementares
em sua linha de desenvolvimento.
Adotando
esta perspectiva, percebemos as razões para a diferença e identidade nas
relações entre capital e Estado nas duas teorias: na fase da Teoria do Capital
Humano, havia a expectativa e o apelo de que os sistemas escolares se
responsabilizassem pela formação do capital, e na era da ‘empregabilidade'
neoliberal, na Teoria do Capital Intelectual, o capital autoproclama sua
autoridade para definir, planejar e implementar políticas educacionais
Se
é para tornar-se propriedade do trabalhador, se é inalienável, que o capital
humano seja “produzido” pelo poder público, mesmo que com a finalidade de
servir ao capital, mas se é para tornar-se propriedade da classe hegemônica, se
é passível de expropriação sem os ônus
sociais dos investimentos na longevidade, por exemplo, então que seja o capital
intelectual, objetivável, produzido sob o controle direto do empresariado.
Retornando à preocupação
com o caráter dialético de nossa análise, ressalvamos que a distinção refere-se
à tônica principal em cada modelo, não desconhecendo, entretanto, que, mesmo em
fases anteriores, o capital já se fazia representar como formulador de
políticas educacionais.
O
que nos chama a atenção são exatamente dois fatores: o primeiro, o caráter
político de desmoralização do Estado educador na Teoria do Capital Intelectual,
congruente com a política de privatizações e de ataque ao Estado em sua face
social, no modelo neoliberal, enquanto o segundo fator refere-se à
possibilidade tecnológica de objetivação, expropriação e controle do
conhecimento, incentivando o capital a assumir o primeiro plano da produção
“interessada” do saber, não abrindo mão, entretanto, do Estado financiador. São
recorrentes os apelos às verbas públicas, encaminhadas direta ou indiretamente,
por parcerias ou isenções, para o financiamento da educação corporativa.
A
TCI assume a função de ideologia - no sentido gramsciano- no momento em que
fornece as bases para a política educacional pautada pelo capiutal.Competitividade
e produtividade constituem o princípio educativo da formação do trabalhador de
“ novo tipo”, e sua prática revela intencionalidade e esforço no sentido de
disseminar o ethos capitalista, de
modo geral e empresarial, de modo
específico, ao mesmo tempo em que o
mesmo espaço formativo é utilizado para a expropriação do conhecimento tácito,
através das noções de colaboração, participação, trabalho em equipe e
disseminação do que sabe o trabalhador.
IV- Bibliografia:
CASTILLO,
Christian. “Comunismo sem transição?.Revista
Estratégia Internacional.n 17- Abril/2001.
Dsiponível em http://www.ft.org.ar/estrategia/ei17/ei17comunismoportu.htm. Acessado em 08/06/2006 às 20:46
Chauí, M. A
universidade em ruínas. In: Trindade,
H. (org.). Universidade em ruínas: na república dos professores.
2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. P. 211- 222.
EBOLI, Marisa . Educação Corporativa no Brasil - Mitos
e Verdades . Rio de Janeiro: Editora Gente, 2004.
FIDALGO, Fernando (organizador) . Gestão do Trabalho e Formação do Trabalhador.
Belo Horizonte, MG: Movimento de Cultura Marxista, 1996.
MARTINS, Herbert
Gomes. Estudo da trajetória das universidades corporativas no Brasil. Rio de
Janeiro, RJ: COPPE/UFRJ, 2004.
MEISTER, Jeanne. Educação Corporativa. São Paulo; Makron Books, 1999.
Mundim, A . F.
Ricardo,
E . J . Educação Corporativa:
Fundamentos e práticas. São Paulo: Qualimark, 2004.
NEGRI, Antonio e LAZZARATO,
Maurizio. Trabalho Imaterial: formas de vida e produção da subjetividade. Rio
de Janeiro: DP&A, 2001.
NONAKA, Ikujira e TAKEUCHI,
Hirotaka. Criação de Conhecimento na
Empresa: como as Empresas japonesas Geram a Dinâmica da Inovação. Rio de
Janeiro: Campus, 1997.
ORLANDI, Eni P.
Análise de Discurso : Princípios e Procedimentos . Campinas,Sp:
Pontes, 1999
SANTOS, Aparecida de
Fátima Tiradentes dos . Desigualdade social e dualidade escolar: conhecimento e
poder em Paulo Freire e Gramsci .
Petrópolis/ RJ:Vozes, 2000.
SANTOS, Aparecida de
Fátima Tiradentes dos . Teoria do
Capital Intelectual e Teoria Do Capital Humano: Estado, Capital e Trabalho Na
Política Educacional Em Dois Momentos do Processo de Acumulação. 2004. http://www.anped.org.br/27ra.htm
Acessado em 15/11/2005 às 19:30
SANTOS, Aparecida de
Fátima Tiradentes dos. A Escola Como Cortina de Fumaça: Capital e Trabalho na
Reforma do Ensino Médio Brasileiro . Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de
Educação 2002. Tese de Doutorado.
Orientadora Dra. Raquel Goulart Barreto
SILVA,
Gerardo; COCCO,
Giuseppe; GALVAO,
Alexander Patez . Capitalismo
Cognitivo:Trabalho, Redes e Inovaçao. Rio De Janeiro: Dp&A Editora, 2003.
SCHULTZ, Theodore . O Capital Humano . Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
SCHULTZ, Theodore . O Capital Humano . Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
STEWART, Thomas
A. Capital Intelectual: A nova vantagem competitiva das empresas. Rio de
Janeiro: Campus, 1998, 18a ed.
ZARIFIAN, Philipe. Objetivo Competência:
Por Uma Nova Lógica. São
Paulo: Atlas, 2001
Nenhum comentário:
Postar um comentário