Entrevista ao Jornal Santuário de Aparecida- SP
Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos
1- O Ministério da Educação prepara a fusão de disciplinas do Ensino Médio.
As atuais 13 podem dar lugar a 4 disciplinas divididas em áreas (ciências
da
natureza, humanas, linguagem e matemática). Na sua opinião, a mudança é
positiva?
Iniciarei com uma ressalva: Há muitos anos, nós, educadores, criticamos
a fragmentação e a “disciplinarização” excessiva e estagnada do conhecimento
escolar, que não permite ao aluno a compreensão das relações entre os diversos
aspectos dos componentes curriculares.
Entretanto, a solução proposta pelo Ministério da Educação não nos
parece solucionar este problema, se considerarmos os seguintes aspectos:
- Os professores são formados em cursos de licenciaturas específicas ou
minimamente expandidas para “disciplinas vizinhas”.
-Os currículos da Educação Superior, em geral, e das Licenciaturas, em
particular, vêm apresentando caráter progressivamente instrumental, aligeirado
e operacional, o que dificulta a formação de um ser (o futuro professor) em
condições cognitivas e epistemológicas de lecionar tomando como referência uma
concepção mais global de conhecimento. As disciplinas teóricas e de
fundamentos, relacionadas à cultura geral, humanista, filosófica, científica,
epistemológica, que favoreceriam a formação de um professor “interdisciplinar”,
vêm sendo retiradas do currículo universitário em favor de disciplinas mais
“factuais” e técnicas, em movimento contrário ao que exigiria a proposta do
Ministério (que é o mesmo que estimula e homologa as diretrizes curriculares
aprovadas no Conselho Nacional de Educação).
- A construção da interdisciplinaridade pressupõe a “disciplinaridade”:
são elementos de uma relação dialética e, portanto, não dicotômica. A
interdisciplinaridade seria a síntese dialética entre a tese da
“disciplinaridade isolada” e sua antítese, a “(con)fusão” aleatória de
elementos comuns (porém com abordagens específicas, ao contrário da
transdisciplinaridade) das diversas ciências, na fórmula dialética a seguir:
tese versus antítese = síntese.
Piaget elaborou sua teoria do desenvolvimento humano, considerando a
dialética. A síntese nega e conserva
elementos de ambos os polos anteriores.
A interdisciplinaridade, então,
seria a síntese dialética desses dois polos, conservando-os em alguns aspectos
e negando-os em outros. Exemplificando: no modelo disciplinar tradicional, o
mesmo tema “Renascimento”, por exemplo, será trabalhado por vários professores:
O de Literatura, abordando a produção literária renascentista; o de História,
relacionando os fatos ao contexto político-histórico do surgimento do
Renascimento; o de Música, os elementos específicos da música renascentista; o
professor de Artes Plásticas, da mesma forma; o de matemática poderá relacionar
a História da Matemática com o movimento Renascentista, assim como o de
Biologia, pelo surgimento da Anatomia. Esses conhecimentos são trabalhados em
cada disciplina, sem ligação com a outra, em momentos diferentes, sem que o
aluno “seja informado” de que cada “fato” estudado isoladamente compõe um único
movimento histórico. Até aqui, tínhamos
o professor especialista: o de Artes Plásticas, ao apresentar a arte
renascentista, nem sempre a relacionava à biologia renascentista, à literatura
renascentista etc. Este seria o “mal” da disciplinarização.
Contudo, tendo bons professores especialistas e conhecedores dos
fundamentos científicos e históricos de sua disciplina, o aluno poderia, ele
mesmo, “ter o insight”, elaborar a síntese, perceber a totalidade. Isto é o que
Piaget indica quando afirma que o sujeito constrói o conhecimento. O sujeito
não constrói o conhecimento a partir de “vazios” intelectuais e cognitivos de
uma globalidade genérica de superfície, mas sim na assimilação, que pressupõe o
conflito e acomodação de elementos os conflitantes e os harmonizáveis.
Assim sendo, o conhecimento disciplinar implica a desvantagem da
fragmentação, mas, por outro, lado, se bem apresentado, a vantagem de permitir
ao aluno, dispondo das diversas contribuições das ciências específicas,
elaborar a síntese. A escola pode, ainda, elaborar projetos onde cada
professor, especialista em sua disciplina, contribui no espaço coletivo docente
e discente, para a construção da interdisciplinaridade. Neste caso, a
interdisciplinaridade curricular seria construída por meio da
multidisciplinaridade. A transdisciplinaridade, por sua vez, exige não apenas o domínio dos elementos
anteriores, como também um nível de desenvolvimento cognitivo que, conforme
Piaget, ocorre no período lógico-formal. A proposta do Ministério não é pautada
na riqueza epistemológica de um currículo rigorosamente inter, multi ou
transdisciplinar (que são, como visto, processos distintos que se articulam),
mas no corte de professores, economia de recursos, substituindo os
especialistas por generalistas ou profissionais polivalentes. Esta é a
tendência do mercado de trabalho em geral, da qual o setor da Educação não vem
escapando. O profissional “polivalente”, que desempenha as funções que
pertenceriam a vários outros, recebe o salário que receberia como “monovalente”.
É remunerado como um profissional, trabalhando por vários. Isto ocorre no setor
comercial, bancário, industrial, e, mais recentemente, na educação.
2- Segundo o Ministro Aluízio Mercadante, os alunos passarão a receber
conteúdos de forma integrada. Isso facilitará a compreensão dos alunos?
Facilitaria, caso fossem sanados os problemas curriculares referidos
acima, além dos fatores que desenvolvo a seguir. Na maioria das vezes, o aluno
do Ensino Médio ainda não alcançou o nível de desenvolvimento lógico-formal ou
abstrato, mesmo tendo a “idade prevista” na sequência elaborada por Piaget:
Sensório-motor, Pré-operatório, Operatório-Concreto e Lógico-formal ou Abstrato.
Piaget prevê que a última etapa inicia-se entre os 11 e os 14 anos de idade,
mas ressalva que isto depende de fatores sociais, históricos e culturais do
meio em que vive o indivíduo. O mundo externo apresenta as situações
“desequilibradoras” das estruturas previamente construídas, que permitem a
passagem de um estágio a outro. A passagem para o pensamento abstrato e
lógico-formal não se dá nas atividades cotidianas, sem que situações de
operações abstratas sejam oferecidas sistematicamente, pois as “situações de
vida” deflagram, em geral, possibilidades de desenvolvimento nos níveis
sensório-motor, pré-operatório e operatório-concreto. Lauro de Oliveira Lima
afirma que cerca de 75% da população brasileira não alcança este nível de
desenvolvimento, em qualquer idade ou nível de escolaridade. Seria necessária,
portanto, que uma proposta desta natureza fosse precedida de profunda reforma
curricular no Ensino Fundamental, orientada para desenvolver o pensamento
lógico formal ou abstrato, e outra na Educação Superior, para formar o
professor preparado para essa concepção. É o contrário do que vem acontecendo,
como vimos na pergunta anterior. Exigiria ainda que as condições de trabalho e
formação continuada nos espaços coletivos internos e externos à escola fossem a
base da proposta. Esse professor precisaria estar em permanente atividade de
estudos, pesquisas, reuniões com seus colegas de equipe. E isto não se faz sem
que haja uma remuneração suficiente para que o professor não viva “pulando” de
uma escola a outra durante a semana inteira. A proporção interna da carga
horária (horário para as aulas e para sua preparação, que não se resume à
elaboração de um plano de aula ou a uma reunião mensal pedagógica para tratar
de assuntos gerais) deve contemplar a necessidade de estudo permanente do
professor. Esta concepção exige que os professores instituam grupos de pesquisa
sistemática na escola. Horários e ambiente físico para orientação de alunos e
realização de seminários internos e externos.
Exige ainda disponibilidade para elaborar e reelaborar o projeto
continuamente e acompanhar o aluno individualmente. Implantá-la em curto prazo significa a
diminuição da qualidade do ensino e precarização do trabalho docente (corte de
custos da remuneração do professor especialista e intensificação do trabalho
daqueles que se dedicariam às grandes áreas). Exigiria que o professor, além
das condições de formação, tivesse uma carga horária integral, com pelo menos
metade da carga semanal destinada às outras atividades, além da sala de aula.
Exigiria que a escola dispusesse de uma estrutura física e de equipamentos e
acervo que permitissem ao professor realizar a construção desse currículo. Que
houvesse espaço adequado e bem equipado para que o professor, alunos e a equipe
pedagógica atuassem nos momentos em que estão fora da sala de aula. Algumas
escolas, especialmente alguns colégios de aplicação, têm uma estrutura que se
aproxima desta proposta, apesar de encontrarem-se hoje limitadas por questões
como falta de material, rotatividade de professores etc. Uma das
características da precarização do trabalho docente tem sido a substituição das
vagas de professores que deveriam ser concursados por professores contratados
por tempo limitado, sem estabilidade, que não se sentem- ou de fato não são- integrados ao trabalho de longo prazo. São
vistos como professores “aulistas”, sem participação em pesquisa de longo
prazo.
Quanto ao aluno, especificamente,
este terá mais facilidade em assimilar e construir conhecimentos, tanto em uma
concepção curricular como em outras, se lhe forem oferecidas as condições para
isto. A ampliação do atendimento ao Ensino Médio, que na década de 1990 estava
na ordem de 10% e hoje alcança cerca de
40%, não pode ocorrer por meio de
uma concepção meramente “facilitadora”, que “disfarça” a diluição dos conteúdos
e compromete a qualidade da formação. Seria uma discriminação às avessas.
Fingimos que incluímos, mas estamos legitimando a exclusão. É preciso oferecer
o melhor ao aluno, de modo adequado, confiando em sua capacidade de assimilar o
conhecimento em profundidade. Não é pela diminuição ou diluição de conteúdos
que se alcança uma boa formação.
Há um discurso no senso-comum,
alimentado por alguns meios de comunicação de massa, que afirma que é
necessário diminuir o número de disciplinas por dois motivos:
-Falta de professores de
disciplinas como Geografia, Biologia e outras.
- O aluno do “Novo Ensino Médio”, vindo das camadas populares, “não precisa
nem deseja” um ensino mais rigoroso. Segundo palavras da professora Guiomar
Namo de Mello, relatora das Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio (no
próprio documento), o aluno que está entrando no Ensino Médio é o filho do
operário, da costureira, que não está interessado em conteúdos “livrescos”.
Quanto ao primeiro argumento, podemos tomar por base um trabalho de
Coradini publicado na Revista Latinoamericana de Estudos do Trabalho em 2010,
com base nos microdados Censo do IBGE, que não há base de verdade em tal
afirmação: No Brasil, entre os licenciados em Geografia, por exemplo, apenas
30% exercem a profissão; nos casos de Biologia, História Letras etc., os
índices não variam muito. Ou seja, analisando este estudo, podemos concluir que
há professores formados para todas as disciplinas, o que não há são empregos
dignos para esses professores (ou há formação deficiente na graduação, pois
muitos exercem profissões que exigem menor escolaridade). Em algumas disciplinas,
chegam a 90% os professores licenciados que não exercem a profissão. Este
argumento, portanto, não justificaria a extinção de disciplinas e a
concentração em grandes áreas. Não é verdade que faltam professores
especialistas no mercado de trabalho.
Quanto ao segundo argumento, este repete a dualidade histórica nos
sistemas educacionais: sempre que os alunos de classes populares entram na
escola por uma porta, os conteúdos saem pela janela. Isto ocorreu na retórica construída
(distorcida) em torno da Escola Nova nos anos 30 e 50, assim como na distorção
do Construtivismo nos anos 80, gerando o esvaziamento de conteúdos, a partir de
caricaturas da “escola tradicional” e caricaturas do “Construtivismo”. O
“Construtivismo” mais popularizado nos
anos 80 nada guarda de Piaget, ao contrário, cria um Piaget “espontaneísta, que
nunca existiu em seus mais de 50 livros. O mesmo foi feito com o nome de Paulo
Freire.
Observemos que os três momentos relacionam-se com mudanças
sócio-econômicas do país e nas bases produtivas: 1930, a primeira fase industrial
brasileira; 1950, o desenvolvimentismo; 1980-1990, o aumento de titulação
escolar para a implantação da “terceira revolução industrial- microeletrônica”.
Esses momentos exigiram dos governos aumento da titulação escolar, o que não se
fez acompanhado de democratização do acesso ao conhecimento. Acesso à escola
não significa necessariamente acesso ao conhecimento. É histórica a existência
de modelos paralelos, onde as camadas social e economicamente privilegiadas têm
acesso ao conhecimento em nível mais rigoroso e aprofundado, enquanto as
classes populares, embaladas em discursos demagógicos, entram na escola, mas numa
escola sem conteúdos.
4- O Brasil tem conseguido
avançar cada vez mais nos níveis de
escolarização. Em contrapartida, o analfabetismo funcional tem aumentado
sensivelmente. Será que as mudanças propostas pelo Ministério da
Educação
estariam seguindo a mesma lógica, para facilitar a “absorção” do
conteúdo e,
como consequência, mascarar um aumento na escolaridade?
Concordo com sua hipótese. Desde que a Lei 9394/96 (a LDB- Lei de
Diretrizes de Bases da Educação Nacional) - e em suas emendas posteriores-
torna obrigatória toda a Educação Básica, incluindo, portanto, o Ensino Médio,
surgem artifícios para que sejam atingidas as estatísticas, especialmente
aquelas cobradas por organismos internacionais, como Banco Mundial, UNESCO,
OCDE ou pela OMC (exigência de mão-de-obra qualificada). A Reforma do Ensino
Médio de 1999/2000, por exemplo, já prevê esta forma curricular, onde, segundo
o documento de apresentação divulgado pelo MEC, o professor de Matemática
poderá ensinar rudimentos de Filosofia, o de Geografia, noções de Sociologia.
Ou seja, a concepção epistemológica permanece disciplinarista, mas a
organização curricular é globalizante. Encontramos
fenômeno semelhante no Ensino Fundamental, onde a implantação dos ciclos (anos
iniciais em que o aluno é aprovado automaticamente) distorceu as teorias sérias
de aprendizagem por ciclos, implantando-os em condições insuficientes de
ensino-aprendizagem, nitidamente para mascarar as estatísticas do
analfabetismo. O resultado é o que todos podemos ver: alunos concluindo o ciclo
básico ou os primeiros cinco anos de escolarização literalmente analfabetos,
não apenas analfabetos funcionais. O analfabetismo literal no Ensino
Fundamental e o funcional no Ensino Médio são fenômenos significativos na
educação brasileira.
COTAS NAS UNIVERSIDADES
5- O novo sistema de cotas proposto pelo Ministério da Educação prevê
50%
das vagas nas universidades públicas para alunos egressos do ensino
público.
Considera essa medida positiva ou negativa para o ensino brasileiro?
Em primeiro lugar, ressalvemos que, pelo número de universidades
públicas no Brasil (apenas 10.5% são públicas, as demais, 89,5%, são privadas),
qualquer medida de acesso ou equidade estará longe de atender às necessidades
da população demandante. Estamos falando de uma política que ignora que as
universidades públicas são a ínfima minoria.
Em segundo lugar, esta medida parte da premissa (real) de que a Educação
Básica pública estadual e municipal, em termos gerais, salvo honrosas exceções,
não prepara seus alunos em iguais
condições aos alunos das “boas” escolas privadas.
Em terceiro lugar, precisamos estabelecer os critérios para o que se
denomina “ensino público”. Esta medida poderia beneficiar aos já
“beneficiados”, que estudaram em escolas públicas federais (Colégio Pedro II,
Colégios de Aplicação das universidades federais e estaduais etc). Esses alunos
são oriundos do ensino público, mas um ensino público bem diferente daquele
oferecido pelas redes municipais e estaduais, por suas condições de
infraestrutura, organização pedagógica, corpo docente (remuneração e tipo de
vínculo, carga horária, turmas numerosas etc).
A solução em longo prazo consiste
em uma política educacional para o ensino público fundamental e médio que não aprisione
os alunos à dependência de cotas, que pode denotar “concessão”, onde há um
direito.
Temos, por outro lado, alunos trabalhadores que, por não conseguirem
vagas públicas perto de seu local de trabalho, cursam uma escola privada
noturna, pagando as mensalidades com o “suor de seu rosto”. Esse aluno não
teria direito a cotas e, provavelmente, o tipo de escola que conseguiu pagar,
também não o preparou para bom desempenho no ENEM, a ponto de obter vagas pelo
SISU.
Apesar disto, como medida “imediata” e “compensatória”, que não
soluciona o problema em sua origem, considero que pode contrabalançar parcialmente
e temporariamente uma injustiça social. Mas, em que condições esses alunos
estudarão? Terão apoio pedagógico para procurar sanar possíveis déficits de
conteúdos necessários? Terão apoio financeiro para custearem-se (alimentação,
transporte, livros, impressão de trabalhos, cópias de textos etc). São muitos
os casos de alunos de universidades públicas (cotistas ou não), que
literalmente passam fome o dia inteiro na universidade, por não disporem de
recursos para lanchar nas cantinas privadas que funcionam no interior das
universidades. Quem convive neste ambiente e tem sensibilidade para “ver”, sabe
que não estou exagerando. Muitas vezes, os professores, orientadores,
percebendo, oferecem discretamente lanches e almoço “do próprio bolso”, porque
o jovem diz que está “sem vontade” de almoçar. São jovens guerreiros, que muitas
vezes estudam em cidades distantes da família, não podendo, portanto, levar seu
almoço de casa, estão em alojamentos ou albergues que não oferecem refeições e
vão dando seu “jeitinho” para estudar. Este é um aspecto da questão social: a
“invisibilidade”. A universidade não está preparada para “ver” esse aluno. As
universidades públicas de grandes cidades costumam oferecer disciplinas em
campi diferentes, o que exige maior despesa com transporte. A política cotista,
portanto, deve fazer-se acompanhar de todas as condições para que o aluno
aprenda de fato. E deve ser concebida como um elemento compensatório de curto
prazo, combinado com a valorização da escola pública básica, para que as cotas deixem
de ser necessárias.
6) O novo sistema de cotas poderia trazer uma espécie de polarização
entre
os alunos egressos do ensino público e do privado?
Há uma cultura na sociedade brasileira, onde o acesso à universidade
pública, por ser historicamente restrito, é signo de status social, ou de “distinção”, como diz Pierre Bourdieu.
Abordando este problema com apoio na sociologia ou na antropologia, podemos
dizer que não seria surpreendente tal polarização, já que a presença de
egressos de outras camadas sociais deixaria de indicar a “distinção” das
camadas sociais tradicionalmente presentes nas universidades públicas. No
interior da universidade pública já há essa separação e seu correspondente
estigma: cursos mais “elitizados”, como Medicina, Odontologia, e mais
“populares”, como Pedagogia, Licenciaturas, Serviço social. A polarização já
existe. Pode ser agravada, caso as cotas afetem esta elitização de alguns
cursos. Cabe à universidade preparar-se para enfrentar o problema com os
instrumentos da pedagogia e da política educacional: conscientização e
tratamento respeitoso. E, sobretudo, prover as condições para que ocorra um bom
desempenho dos alunos cotistas, eliminando, assim, os “pretextos” para a
discriminação.
7- A democratização do acesso às universidades é importante diante das
atuais circunstâncias?
Para pensarmos em democratização do acesso, que, sem dúvida, não é
apenas importante, mas necessária, como direito constitucional e direito humano
fundamental, precisamos, de antemão, analisar o contexto atual da Educação
Superior no Brasil.
A universidade brasileira
(pública e privada) atende apenas a 6 milhões de alunos, o que representa muito
menos que a metade da demanda imediata, sem considerar a demanda reprimida. O
último Censo do MEC-INEP indica que 75% destes alunos estão nas instituições
privadas, que respondem por 89% do número de instituições em todo o território
nacional. Temos observado, nas duas décadas iniciais deste século, um fenômeno
de “empresariamento profissional” das instituições de Educação Superior (IES),
onde formam-se grandes grupos educacionais, sustentados por grupos de
investimentos, vinculados a outros negócios (bancos, lojas de varejo,
fast-food, indústria de bebidas, cigarros etc), muitos deles com capital aberto
na Bolsa de Valores, que vão adquirindo ou levando ao fechamento (por práticas
de dumping) as demais: IES
tradicionais locais, comunitárias, confessionais etc. Esse novos grupos assumem
a Educação Superior como um negócio, nos moldes da proposta da OMC (Organização
Mundial do Comércio). Temos hoje, no
Brasil, cerca de 15 grandes grupos que controlam o setor, composto por mais de
2 mil instituições. As IES pequenas e/ou as que não estão vinculadas a esta
forma de gestão são levadas ao fechamento ou a se venderem a tais grupos,
gerando o desaparecimento de sua marca, por vezes tradicional na comunidade, e
sua concepção curricular e de formação humana. É um tipo de mercantilização da
Educação Superior que atinge a Educação não apenas na forma de “venda”, por
meio de mensalidades, mas o próprio processo de produção acadêmica é subordinado
à lógica de produção de qualquer outra mercadoria.
Mesmo na universidade pública, após a Reforma do Estado da década de
1990, implantou-se o modelo gerencialista do mercado, coagindo tais
instituições a buscar recursos para pesquisa no mercado. Imaginemos o destino
de pesquisas sobre Saúde Coletiva, Bioética, Direito à Vida, Moradia Popular,
Educação Popular, Preservação Ambiental, financiadas por empresas que têm
interesse econômico na mercantilização desses “serviços”. Como seriam
resolvidos os conflitos de interesses? Reprovando, nos editais, as pesquisas
que não interessassem aos financiadores. Lembrando que tais “financiadores” recuperam
os investimentos, por meio de contrapartidas fiscais. Sintetizando, financiam
segundo seus próprios interesses, mas com dinheiro público, que deveria ser
destinados aos interesses sociais.
Os direitos passam a ser tratados como serviços vendidos no mercado.
Este é, em linhas gerais, o quadro da universidade brasileira, que vem perdendo
a autonomia na produção do conhecimento e nas escolhas éticas, para as leis do
mercado: produzir a baixo custo, rapidamente, e em massa, aquilo que gerar mais
lucro.
A democratização da Educação Superior, digna de assim ser nomeada, exige
a universalização do acesso e das condições de ensino-aprendizagem, extensão e
autonomia para a pesquisa. Medidas paliativas, compensatórias, podem amenizar
os efeitos de injustiças históricas cometidas contra determinados grupos
sociais, mas precisam ser acompanhadas das reformas estruturais, tanto na
Educação, como na sociedade. Caso contrário, poderá legitimar tais injustiças,
sob a aparência de está-las extinguindo.
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