domingo, 7 de outubro de 2012

O professor em situações-limite


O professor em situações-limite
Aparecida Tiradentes Santos

 Entrevista concedida ao Jornal Folha Dirigida – 2 a 8 de outubro de 2012
 

1)     A senhora é autora do livro "Listrinho – Crônicas para professores",

que sugere, entre outras coisas, uma reflexão sobre o papel do educador em

situações limites. Qual seria este papel?

 
R:Ter firme consciência da importância de sua profissão: perceber-se - e portar-se - com coerência e serenidade, como educador. Não interpretar “agressões” como “ataques pessoais”. Se reagir às atitudes agressivas do aluno com igual agressividade ou, ao contrário, deixando-se acuar, não soluciona o problema, agravando as dificuldades em fixar limites e em educá-lo. Agindo com autoridade (e não autoritarismo), não “fazendo o jogo” da reação “desnorteada” que o aluno espera, pode facilitar o estabelecimento de limites. As condições de trabalho do professor o levam a um grau de adoecimento emocional, que dificulta tal postura, mas não podemos alimentar este círculo vicioso.

  

2)     A senhora busca levar o leitor a uma viagem pelas relações humanas,

em especial, as de crianças que sobrevivem com muita resistência às

violências da vida. Quais as formas de violência, principalmente emocionais,

com que sofrem as crianças?

 


R:Uma delas é o roubo de sua infância. A “profissão” da criança é brincar (muito) e estudar (o suficiente). As crianças das camadas populares não podem brincar porque precisam trabalhar; as de classes médias e altas, porque têm uma grade de atividades semanais tão intensa, que até as brincadeiras são “regulamentadas”, tornando-se um fardo adicional. Muitas são as formas de violência, mas a maior delas é a falta de amor e respeito. Temos muitas opções de formações familiares hoje: em todas elas o amor pode  estar presente. Amor é compromisso com a criança. Família estruturada é aquela onde há amor e respeito, independendo de adotar o formato tradicional ou não.

                                             

3)     Algum caso de violência física ou emocional ficou marcado em sua

memória, pelo mal que fez ao estudante?
 

R:Inúmeros, incluindo os que relato no livro. Lembro-me de uma que une violência física, social e simbólica: um menino de nove anos saía da escola e ia para o trabalho, onde permanecia até à noite. Todo o seu pagamento ia para as mãos do padrasto, para as despesas familiares. Um dia, tendo recebido o pagamento, o menino passou em uma lojinha popular e comprou um carrinho. Ao chegar em casa e entregar o dinheiro ao padrasto, este, vendo que faltava o valor gasto com o brinquedo, agrediu fisicamente o menino, a ponto de, no dia seguinte, na escola, este estar com dificuldades de andar, falar e escrever.

 

4)     Qual a maior dificuldade para lidar com a violência no âmbito da

escola?                       

 
R: Despreparo, falta de condições e de apoio e acompanhamento por equipes pedagógicas (que hoje são obrigadas a atuar como “gerentes”) e desconhecimento das causas e formas de prevenção. A Escola Tasso da Silveira, em Realengo, sofreu com o assassinato de vários alunos dentro da sala de aula por um ex-aluno. Vejamos: esse ex-aluno não saiu atirando a esmo dentro de um supermercado, num baile ou no trem que  pegou para ir de Santa Cruz, onde morava, a Realengo. Ele tinha um alvo certo: era a escola onde ele havia estudado e sofrido, anos a fio, violência moral. Isto deve nos ensinar algo. Se esse menino, quando aluno, tivesse sido “defendido” pela equipe pedagógica e docente, dos ataques que sofria, será que teria feito o que fez? Ele não foi em busca dos indivíduos que o maltratavam, pois estes já não estudavam lá. Ele foi atacar a escola que permitiu os maus tratos, por não perceber, por omitir-se, por minimizar ou por não ter condições de agir. Esta é a nossa responsabilidade.

 

5)     Como vê a forma com a qual o poder público lida com a violência nas

escolas?

 
R:Em geral, com medidas “policialescas” e não preventivas. Escola é local de educação, não de repressão armada (ao contrário de uma postagem que circula em uma rede social, dizendo que ‘escola ensina, família educa’, afirmo que escola educa sim!). A violência deve ser abordada em bases pedagógicas, por professores, orientadores, assistentes sociais, compreendendo-a como microcosmo de uma sociedade que produz a violência. Militarizar as escolas, tomando por pretexto exemplos infelizes, como o da escola de Realengo, somente agrava a situação. No Sul do Brasil, recentemente, tivemos o caso de um aluno assassinado por um guarda escolar armado.

 

6)     Conhece algum bom exemplo de escola ou rede pública, para lidar com a

violência no ambiente escolar?

 

Em três décadas de magistério, tenho visto inúmeros exemplos bem-sucedidos. Como medidas políticas gerais adotadas pelas redes, estas devem vir acompanhadas de políticas sociais mais amplas. Registro o exemplo da Secretaria Municipal de São Paulo no início da década de 1990, na gestão do querido Paulo Freire, que, como não poderia deixar de ser, implantou uma política participativa. Assim como a cidade de Diadema-SP, no mesmo período, conhecida como uma das mais violentas do mundo. No plano internacional, temos o belíssimo exemplo do educador russo Makarenko, na educação de jovens infratores, uma referência mundial para a Pedagogia.

 

7)     A senhora busca, em seu livro, sugerir a necessidade de os

professores irem contra as evidências e acreditarem na superação do ser

humano. É difícil os professores não acreditarem nos alunos, em especial

quando as condições sociais e econômicas são adversas? Por que?

 

 R: Costumo dizer, sob o risco de parecer piegas ou de suporem que desprezo os determinantes políticos e econômicos, que a matéria-prima do trabalho do professor é a esperança. Não se trata aqui de retórica, mas da própria condição estrutural de nossa profissão: ninguém vai à escola para “piorar”, mas sim para melhorar, seja em que aspecto for: ampliar conhecimentos, fazer amigos para a vida toda, compreender melhor o mundo em que vive. Professor sem esperança, que não é apaixonado por gente, está intrinsecamente destituído de seu instrumento primário. É o mesmo que um cirurgião que não possa ver sangue. Uma impossibilidade estrutural. Imagine um médico que diga assim: não vou lhe atender porque você está doente. É o mesmo que um professor dizer: não vou lhe ensinar porque você não sabe.

 

8)     A senhora relata situações que viveu na condição de professora do

ensino fundamental. Qual a maior dificuldade, para um professor desse

segmento, em lidar com situações de conflito entre alunos, por exemplo?

 

A formação, cada vez mais aligeirada e instrumental, que não o prepara para ser um educador e as condições de trabalho (turmas numerosas, vínculos precários, carga dividida em várias escolas, competitividade por boas posições nos rankings). Estes são os fatores mais visíveis. Porém, os fatores macroestruturais,  os sócio-econômicos, são os mais graves. Nossa sociedade é marcada pela divisão de comunidades por facções do poder paralelo. Quando o governo promove a remoção de moradores de comunidades “rivais” para áreas de convívio comum, o professor recebe em uma mesma turma, alunos que já trazem a marca externa na “proibição de convívio” e o incitamento à violência.

 

9)     Qual o papel do professor para ajudar um aluno vítima de violência

dentro ou fora da escola a se recuperar do trauma.

 

A rigor, a “recuperação” de um trauma ocorreria através de um profissional de saúde mental, cujo acesso é negado à maioria da população. A escola, em um movimento legítimo de “desmedicalização” do fracasso escolar nos anos 1980, afastou-se (erroneamente) dos profissionais de saúde mental. Ao professor, cabe ter sensibilidade para promover situações de convívio que amenizem os efeitos do trauma (ou das situações continuamente traumáticas) ou que, o menos, não os acentuem. Se for uma situação atual e externa, procurar o Conselho Tutelar. Se for uma situação interna, mobilizar a escola para prevenir e impedir pedagogicamente a violência.

 

10) A senhora também relata situações de quando atuava como orientadora

educacional. Qual a importância desse profissional para dar o suporte aos

alunos?

Considero fundamental a presença do orientador, do supervisor e do coordenador, atuando em conjunto, articulando as especificidades de cada um. O orientador educacional desempenha papel importantíssimo em momentos em que o aluno necessita de um tipo de “escuta” que o professor, em sua rotina, se vê impossibilitado. É ainda um importante interlocutor do professor, para discutir situações de dificuldades no processo ensino-aprendizagem e no contato com a família. Relato no livro o caso de um aluno, que perdeu a mãe, vítima do HIV, poucas semanas após perder o pai pelo mesmo motivo e o avô por atropelamento. Vindo do sepultamento da mãe, foi direto à escola, procurou-me, como orientadora educacional, segundo ele “para nada”. É um “nada” que faz muita diferença.

 

11) Muitas escolas não têm orientadores educacionais. Estes profissionais

fazem falta nas escolas? Por que?

 

Por todos os motivos acima, além da colaboração na construção de um currículo que tome por referência o aluno concreto (não o estigmatizado por pertencer às classes populares). Um bom orientador é aquele que trabalha tão próximo ao professor e ao conjunto da escola, que, aparentemente, torna-se desnecessário em alguns aspectos, exatamente aqueles da invisibilidade que faz a diferença.

 

12) As situações relatadas no livro ocorreram quando a senhora trabalhava em

escolas públicas. No setor privado, acredita que o quadro seja diferente?

Pode ser ainda pior?

 

No livro, abordo a situação de violência presente nas vidas dos alunos daquelas escolas concretas, mas isto não significa que a pedagogia apresentada seja específica apenas a um tipo de escola. O tipo de violência expressado em escolas privadas emana da mesma sociedade. Segundo o psiquiatra francês Déjours, a violência resulta da banalização da injustiça social. Isto ocorre, no caso dos alunos de classes privilegiadas, pela banalização do “bullying”, pela pressão por desempenho altíssimo, competitividade, comprometimento da sociabilidade das crianças, no produtivismo exigido da infância atual, que não tem horários livres para simplesmente brincar.

 

 

 

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