segunda-feira, 3 de março de 2014

Sobre o último livro de Eric Hobsbawn

Sobre o último livro de Eric Hobsbawn.
Acabo de ler o capítulo “The intellectuals: role, function and paradox”, do livro “Fractured Times: culture and society in the twentieth century”, de Eric Hobsbawn (London: Little,Brown, 2013).  
Sou leitora ávida de Hobsbawn: tanto que, logo que bati os olhos, comprei  o livro  - em inglês - na FNAC de Leuven, Bélgica, muito mais caro do que aqui, por não ter consultado os catálogos das livrarias online e saber que o lançamento no Brasil foi simultâneo ao europeu. Mas, valeu:  a publicação brasileira não tem o luxo da foto da Marilyn Monroe na capa (dura). Amo livro de capa dura!
Como disse, sou leitora habitual do autor. Neste capítulo, entretanto, decepcionei-me e indago as razões que o levaram a publicar um texto tão superficial àquela altura da carreira e após ter publicado tantas obras que se tornaram clássicos da historiografia e referências para as Ciências Humanas e Sociais em Geral.
“Fractured Times” é  uma obra póstuma, mas parece que o autor, morto há cerca de um ano,  a havia deixado organizada, considerando a leitura da Introdução. Esta inferência me leva a descartar o  primeiro raciocínio que me veio à mente: “golpe editorial” para vender livros de um autor recém-falecido, “coletando” e vendendo qualquer cantinho de papel ou arquivo deixado. Não parece ser o caso. Hobsbawn assina a introdução, onde descreve o conteúdo de cada capítulo. Trata-se de uma obra acabada, portanto.
Começa fazendo uma pergunta meio “sem pé nem cabeça”: poderíamos considerar a existência dos intelectuais antes do advento da escrita? Faz as devidas ressalvas aos xamãs, mestres antigos e outros líderes da oralidade e destaca a importância da escrita para o registro da memória e da consolidação dos intelectuais  etc etc etc.
Ao questionar o papel dos intelectuais no século XXI, fazendo um breve retrospecto do último século e meio, sem nenhuma novidade além da caricatura (engajamento francês, desilusão com o socialismo real etc etc ), o autor apresenta uma “solução original” no último parágrafo: a integração entre os intelectuais individuais e as massas.
Ora, Gramsci (citado por Hobsbawn ao mencionar o conceito de “intelectual orgânico” ) escreveu centenas de páginas sobre o assunto há quase um século, conferindo profundidade na análise. E Hosbawn se “oferece” para resumir tudo isto em um capítulo de 10 páginas? Lamentável.
Sinto o gosto do lugar-comum: a “sociedade do conhecimento” (conceito rejeitado pela intelectualidade anticapitalista, que ele utiliza sem ressalvas explícitas) necessita de trabalhadores com maior escolarização, nunca houve na história tanta gente com diploma de Educação Superior, os novos graduados não deixaram de ser pobres por terem obtido a graduação, salvo raras exceções,  e por aí foi ele, mapeando a elevação da escolaridade no século XX e XXI, o papel do conhecimento e sua relação com o poder. Enfim: nada que justificasse a assinatura de um Eric Hobsbawn.
Fico por aqui com esta resenha. Lerei os demais capítulos e dou notícias.



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