ENDIPE 2008
EDUCAÇÃO CORPORATIVA: INCUBADORA DE MONSTROS ÁRIDOS DE OLHOS ÁGEIS E MÃOS FIRMES? (painel - oral)
Coordenadora: Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos
Esta pesquisa tem como objeto o modelo de Educação Corporativa desenvolvido no Brasil na última década. O conceito de educação corporativa define as iniciativas educacionais assumidas pelas empresas, envolvendo uma imensa diversidade de modalidades, que abrangem desde a educação formal de todos os níveis até a educação não-formal, da formação geral à educação profissional, cursos presenciais e à distância, voltados para os trabalhadores da organização ou para a comunidade. Compreendemos o surgimento deste modelo de formação como a estratégia atualmente considerada mais adequada pelo capital para a formação de trabalhadores. Problematizamos a adoção do modelo pelo Estado brasileiro que, entre outras iniciativas de apoio, abriga no sítio eletrônico do Ministério do Desenvolvimento, o Portal de Educação Corporativa e promove periodicamente oficinas sobre o tema. O quadro referencial do modelo por nós criticado é fundamentado na “Teoria do Capital Intelectual” de Sveiby, Stewart , Nonaka e Takeuchi. Consideramos que a formulação da noção de Capital Intelectual relaciona-se dialeticamente com a Teoria do Capital Humano, ao mesmo tempo modificando aspectos referentes ao papel do Estado social e conservando aspectos referentes à perspectiva instrumental-pragmatista do projeto educacional capitalista. Este tema tem sido exaustivamente estudado pelo mundo acadêmico nas áreas relacionadas à Gestão, sem uma perspectiva crítica. No campo da Educação é um objeto novo. Este painel é composto por três trabalhos que se debruçam sobre o fenômeno a partir de um referencial crítico, que compreende a formação profissional num quadro referencial emancipatório, distinto do quadro hegemônico no campo da Gestão organizacional. O título é alusivo à crítica gramsciana, que em seu texto “Homens ou Máquinas?” afirma que a educação profissional não pode ser uma incubadora de monstros áridos e mãos firmes.
Política educacional- Trabalho e Educação- Educação Corporativa
EMPRESA QUE VIRA ESCOLA: ESTUDO DE CASO DA UNIVERSIDADE CORPORATIVA X.
Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos (FIOCRUZ)
Eduardo Almada (FIOCRUZ)
Nayla Cristine Ferreira Ribeiro (PROGESTÃO – FIOCRUZ – FAPERJ)
Thalita Oliveira de Almeida (FIOCRUZ –FAPERJ)
Resumo:
Termos como educação continuada, qualificação profissional, empregabilidade etc. tornaram-se indispensáveis no atual modelo de produção, uma vez que estas ações de natureza educacional têm como objetivo tornar as empresas diferentes perante a competitividade mercadológica. As organizações lançam mão do modelo emergente de Educação Corporativa, que é definido por ações pedagógicas direcionadas aos trabalhadores e, em alguns casos, à comunidade em geral, com o intuito de formar de acordo com o thélos da corporação. As instituições corporativas utilizam como justificativa a negligência do Estado para a formação de mão-de-obra qualificada para o mercado de trabalho; baseando-se na política neoliberal, as empresas passam atuar como agentes educadores. Neste trabalho, apresentaremos através da Universidade Corporativa X (UC X), que pertence a uma empresa de assistência médica, como se configura este modelo de educação. O referencial teórico utilizado é Antonio Gramsci e István Mèszáros; Gramsci defende uma educação geral, de caráter humanista, que possibilite aos indivíduos o desenvolvimento de todas as suas potencialidades, educação esta “desinteressada” da formação imediata do jovem ao mercado de trabalho. Mèszáros insere a necessidade da educação para além do capital. Adotamos como metodologia a pesquisa qualitativa, no formato estudo de caso, no qual há consistência e coerência com o referencial abordado. A importância de estudarmos a Educação Corporativa consiste no escasso estudo com abordagem crítico-pedagógica. Outro fator de motivação para esta pesquisa foi a dimensão que esta política neoliberal vem ganhando, uma vez que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) está fomentando estudos referentes à temática. Percebemos nas ações da educação corporativa, e em especial da Universidade Corporativa X, um caráter limitador e utilitarista da formação humana, que não condiz com o modelo “desinteressado” de formação pertencente à concepção gramsciana.
Palavras-chave: Educação Profissional – Universidade Corporativa – Trabalho e Educação.
“EMPRESA QUE VIRA ESCOLA”i: ESTUDO DE CASO DA UNIVERSIDADE CORPORATIVA X.
Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos (FIOCRUZ)
Eduardo Almada (FIOCRUZ)
Nayla Cristine Ferreira Ribeiro (PROGESTÃO – FIOCRUZ – FAPERJ)
Thalita Oliveira de Almeida (FIOCRUZ –FAPERJ)
I – INTRODUÇÃO:
Este trabalho trata da ação educativa que as empresas adotam para seus trabalhadores com o intuito de formá-los através da disseminação da cultura empresarial, denominada de Educação Corporativa. Difundida pela exigência do contexto da reestruturação produtiva, a educação torna-se contínua e se alinha ao thélos empresarial: a competitividade mercadológica.
É importante ressaltarmos que esta pesquisa é parte integrante de um projeto maior que visa à ação da Educação Corporativa no âmbito da saúde, realizado pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Trabalho e Educação (GEPTE), que atua na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), unidade da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), no Rio de Janeiro.
O foco desta pesquisa é a Universidade Corporativa X, que pertence a uma empresa privada de assistência médica. Este trabalho justifica-se pela relevância do tema, que é pouco estudado numa abordagem crítica, sobretudo na área da educação. Outro fator de motivação para este trabalho é a dimensão que esta política mercadológica vem ganhando, uma vez que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) está fomentando estudos referentes à temática.
Utilizamos como metodologia a pesquisa qualitativa no formato estudo de caso, na qual há consistência e coerência com o referencial teórico abordado.
Neste estudo, servimo-nos da fundamentação teórica de Antonio Gramsci com o papel da escola unitária, omnilateral, “desinteressada”, e István Mészáros, que insere a necessidade da “educação para além do capital”.
Iniciaremos nossa discussão abordando superficialmente algumas questões inerentes ao capital, como a necessidade de formar e capacitar trabalhadores para os novos modos de produção. O empresariado vem utilizando estratégias educacionais, implementadas no interior de suas plantas produtivas, que trazem a denominação de Educação Corporativa.
Diante de toda transformação provocada pela implantação da teoria Neoliberal, surge uma nova revolução industrial denominada por alguns autores de “revolução da informática” ou “revolução da automação”. Assim, o modelo de adestramento e treinamento (taylorista/fordista), que até pouco tempo foi prevalecente e requeria do trabalhador somente o domínio manual, deixa de atender ao novo formato de produção baseado na automação, passando a exigir do trabalhador um conhecimento analítico e reflexivo característico do domínio intelectual, típico na educação corporativa.
A existência das unidades de educação corporativa é justificada, segundo a ótica empresarial, pela negligência educacional do Estado, que faz com que os empresários assumam os papéis de agentes educadores. Desta forma, o locus educacional, de forma estratégica, tem se esgueirado para o interior das empresas e, em alguns casos, com a chancela do próprio Governo mediante o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), que fomenta e estimula propostas voltadas para a educação no interior das empresas.
II – EDUCAÇÃO CORPORATIVA:
A Educação Corporativa surgiu nos Estados Unidos na década de 1950 devido a uma necessidade sentida pelas empresas em ensinar o “como fazer”, baseado no novo modelo de produção, criando-se, então, os centros de estudos que mais tarde ficaram conhecidos como “universidades, institutos ou faculdades corporativas” (MEISTER, 1999, p.20). Com um perfil diferenciado das Universidades Acadêmicas, as ações da educação corporativa são pautadas por atividades flexíveis e investimentos no corpo de trabalhadores com a finalidade de alcançar o sucesso corporativo. Esta modalidade é viabilizada pela política mercadológica estabelecida pelo modelo atual de produção - a acumulação flexível - que exige do trabalhador uma adequação imediata às necessidades da empresa e que, por força de seus objetivos, acaba por dar ênfase à educação continuada.
No Brasil, esta modalidade educacional é iniciada na década de 1990 com a abertura econômica do governo do então presidente Fernando Collor de Mello, e ratificada no governo de Fernando Henrique Cardoso, ocasião em que a política neoliberal foi intensa e eficazmente difundida, tendo sua continuidade efetivada no atual governo. A expansão das unidades de educação corporativa ocorreu no país entre 2000 e 2006, segundo relatório do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (BRASIL, 2006). De acordo com este relatório, não se sabe ao certo o quantitativo de unidades de educação corporativa em território nacional devido à abrangência do conceito, contudo entende-se a existência de mais de cem unidades.
As ações educativas viabilizadas pelas corporações envolvem várias modalidades de ensino, tais como cursos livres (inglês, informática, etc.), educação básica (ensino fundamental e médio), educação profissional de nível técnico, graduação, pós-graduação e capacitação interna.
A clientela que dispõe das atividades corporativas é composta por colaboradores – é a forma pela qual o capital se refere aos seus empregados, com a finalidade de emitir a falsa idéia de companheirismo -, seus familiares, fornecedores e, em alguns casos, a comunidade em geral, que é atingida, principalmente, através das ações de responsabilidade social que estão integralmente associadas às ações da educação corporativa. Segundo Meister (1999), destacada guru da área e presidente da Corporate University Xchange – empresa norte-americana de consultoria de Educação Corporativa –, o essencial para ter uma instituição de sucesso é “assegurar que os funcionários certos participem no momento certo das atividades de treinamento e aprendizagem certas” (p. 243).
O corpo docente que atua nas instituições corporativas é bastante variado. “Abrange professores universitários titulados, consultores externos, executivos e até profissionais próprios da instituição, submetidos a algum tipo de preparação para o ensino” (MARTINS, 2004, p.45). Verifica-se que a atuação dos gerentes e executivos como docentes está associada ao comprometimento e entendimento que eles têm dos negócios da empresa. Uma vez que vivenciam diariamente o cotidiano corporativo estão aptos, segundo o universo empresarial, para atuarem como educadores. O respaldo a alguma preparação didático-pedagógica não é percebido como de grande importância neste contexto.
Alguns autores relatam que o investimento que as empresas de grande porte realizam para implementar as unidades de educação corporativa é bastante elevado e a rentabilidade não é imediata. As pequenas e médias empresas estão tornando possível a aprendizagem dos seus trabalhadores através da educação corporativa setorial, onde “buscam compartilhar benefícios e ônus de suas atividades entre empresas/organizações [...] com os setores de alta tecnologia e instaladas em parques tecnológicos e arranjos produtivos locais” (BRASIL, 2006, p.4).
A Educação Corporativa não se limita ao tempo e nem ao espaço. Ela atua através da educação presencial com workshops, programas de lato sensu, cursos de idiomas etc., que são oferecidos em espaços próprios das instituições ou em espaços alugados. Além disso, a Tecnologia da Informação e do Conhecimento (TIC) possibilita o aprendizado à distância através do e-learning, modalidade bastante utilizada e cristalizada pelos autores da área como o que há de mais moderno para a educação. Contudo, segundo o relatório do MDIC (2006), percebeu-se uma maior importância atribuída à educação presencial que à educação à distância, contrariando desta forma as previsões dos especialistas da temática.
A maior dificuldade, atualmente, das empresas está na certificação dos cursos, pois somente as Instituições de Ensino Superior reconhecidas e avaliadas pelo MEC (Ministério da Educação) podem outorgar diplomas (MARTINS, 2004). A estratégia utilizada para minimizar este problema são as parcerias realizadas entre instituições acadêmicas e instituições corporativas. Desta forma, a primeira chancela a certificação à segunda. As Universidades Acadêmicas atuam também na formação de cursos sob encomenda para as corporações.
Encontramos na literatura referente a esta temática, tanto a nomenclatura “Educação Corporativa” quanto “Universidade Corporativa”. Porém, utiliza-se freqüentemente o termo Universidade Corporativa (UC) com a finalidade estratégica de obter a atenção dos funcionários - uma vez que eles se orgulham de trabalhar e estudar numa instituição que abriga uma universidade - e dos clientes, que se sentem mais atraídos pelos serviços de uma instituição que investe no ensino. A utilização do termo “Universidade” remete à idéia, segundo a ótica empresarial, de flexibilização e mobilidade de ações educativas, além de impressionar positivamente colaboradores e comunidade em geral. Contudo, a incorporação desse termo vem sendo bastante criticada por acadêmicos da área da educação que compreendem a utilização como “uma usurpação de competências exclusivas do mundo acadêmico” (QUARTIERO e CERNY, 2005, p.23).
A existência da Educação Corporativa se justifica, segundo a ótica empresarial, pela alegação neoliberal de que o Estado não consegue suprir a necessidade de formação do trabalhador. O discurso corporativo declara o Estado incapaz de fornecer ao mercado a mão-de-obra adequada e chama para si esta atribuição, defendendo o deslocamento do papel do Estado para o empresariado na direção de projetos educacionais. As empresas trouxeram as escolas para seu interior, ao invés de esperarem que as escolas tornem os currículos mais relevantes para a realidade empresarial (MEISTER, 1999).
III – QUADRO TEÓRICO-METODOLÓGICO
Na pesquisa qualitativa busca-se consistência e coerência com o referencial teórico abordado; a crítica que o pesquisador faz ao objeto é fundada na ideologia do referencial. Não podemos dizer que exista neutralidade no pesquisador, uma vez que este está mergulhado em posicionamentos políticos, uma vez que “todo ato de pesquisa é um ato político” (LÜDKE e ANDRÉ, 1986).
As relações teoria-empiria, segundo Ludke e André (1986), se estabelecem por meio da articulação entre o referencial teórico, as evidências empíricas e a capacidade de sustentação do pesquisador frente às relações que estabelece.
A pesquisa foi dividida em dois momentos: um inicial, que buscou levantar dados do objeto e, seqüencialmente, a pesquisa de campo, onde realizamos entrevistas estruturadas e semi-estruturadas com os sujeitos envolvidos, observação registrada em diário de campo e análise documental com base na análise do discurso (ORLANDI, 1999).
Como instrumento analítico utilizou-se a dialética na categoria da totalidade, na qual cada caso estudado tem a importância em si, mas pensando em um universo de categorias (KOSIK, 1976).
A realidade é apresentada como um fenômeno superficial ao homem; segundo Kosik (1976), para desvendarmos sua essência é necessário um conhecimento maior sobre o objeto. A realidade, à primeira vista, é abstrata; não cabe ao homem juízo de valor, num primeiro momento. Desta forma, compete ao pesquisador “pesquisar o fenômeno de determinada coisa [...] indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo se esconde” (KOSIK, 1976, p. 12).
Os estudos de Antonio Gramsci e István Mészáros demonstram fortemente o papel da educação como ferramenta contra-hegemônica e, neste trabalho, sustentam a nossa crítica ao modelo da Educação Corporativa.
Gramsci se opunha à escola dualista que pré-determinava o futuro dos jovens, destinando aos filhos do proletariado uma educação técnica-instrumental e aos filhos da classe dominante, escolas de formação geral e humanista.
O modelo educacional pensado por Gramsci foi a “escola unitária”, pautada na formação geral de essência humanista:
[...] destinado a desenvolver em cada indivíduo humano a cultura geral ainda indiferenciada, o poder fundamental de pensar e de saber orientar-se na vida [...] escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre de modo justo o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual. (GRAMSCI, 2004, p.32 – 33)
Para este autor, qualquer atividade, seja ela instrumental ou mesmo técnica, não está dissociada do trabalho intelectual. Logo, para ele: “em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora” (GRAMSCI, 2004, p.18).
O intelectual italiano se opunha à escola “interessada” no sentindo de interessar-se pela formação imediatista do jovem para atuar no mercado de trabalho.
O homem, para Gramsci, se constitui pelo trabalho, não há como separar “o homo faber do homo sapiens” (GRAMSCI, 2004, p.53), ou seja, o trabalhador do ser intelectual.
Observamos, durante o desenvolvimento deste estudo, que o capital consegue se adaptar às presentes dificuldades criando novos contornos, como a Educação Corporativa. Sendo assim, MÉSZÁROS (2005) oferece uma importante possibilidade de se pensar o papel da educação não em um contexto configurado pela classe hegemônica, mas sim em um contexto emancipatório:
[...] desde o início o papel da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à “legitimação constitucional democrática” do Estado capitalista que defende seus próprios interesses. Pois também essa “contra-internalização” (ou contra consciência) exige a antecipação de uma visão geral, concreta e abrangente, de uma forma radicalmente diferente de gerir as funções globais de decisão da sociedade, que vai muito além da expropriação, a muito estabelecida, do poder de tomar todas as decisões fundamentais, assim como das suas imposições sem cerimônia aos indivíduos, por meio de políticas como uma forma de alienação por excelência na ordem existente. (p.61)
Sabe-se que Mészáros sustenta uma idéia de educação para além dos limites do capital, portanto, imagina-se poder admitir que suas convicções teóricas sobre educação se apresentem diametralmente opostas às práticas que envolvem a Educação Corporativa. Assim, cabe conhecer um pouco mais destas convicções, certamente contidas em uma dimensão distanciada da formação alienada para a produção:
[...] o papel da educação é soberano, tanto para a elaboração de estratégias apropriadas e adequadas para mudar as condições objetivas de reprodução, como para a automudança consciente dos indivíduos chamados a concretizar a criação de uma ordem social metabólica radicalmente diferente. É isso que se quer dizer com a concebida “sociedade de produtores livremente associados”. Portanto, não é surpreendente que na concepção marxista a “efetiva transcendência da auto-alienação do trabalho” seja caracterizada como uma tarefa inevitavelmente educacional.
A esse respeito, dois conceitos principais devem ser postos em primeiro plano: a universalização da educação e a universalização do trabalho como atividade humana auto-realizadora. De fato, nenhuma das duas é viável sem a outra. Tampouco é possível pensar na sua estreita inter-relação como um problema para um futuro muito distante. Ele surge “aqui e agora”, e é relevante para todos os níveis e graus de desenvolvimento socioeconômico. (op. cit, p.65)
IV – OBJETO EMPÍRICO:
A educação sempre foi motivo de preocupação e interesse para a empresa de assistência médica privada a qual esta Universidade Corporativa está vinculada.
A empresa criou na década de 80, dois anos após sua fundação, um Centro de Treinamento, que uma década mais tarde, devido a este termo ter se tornado obsoleto, se transformaria em uma Escola de Administração, voltada somente para os funcionários pertencentes ao setor administrativo da empresa.
Acompanhando a tendência do mundo corporativo e só confirmando um modelo de educação que vinha pregando há anos, a empresa funda no ano de 2002, uma década depois da Fundação da Escola, a sua Universidade Corporativa. Inicia-se assim uma nova era na empresa, pautada na filosofia da capacitação contínua, característica das Universidades Corporativas. Segundo Marchi e Castro (2006), o objetivo da Universidade Corporativa X é:
Estimular o indivíduo à constante busca pelo aprendizado, proporcionando, assim, o seu desenvolvimento pessoal e profissional; valorizar as relações, contribuindo para um mundo mais humano e socialmente responsável; difundir o conhecimento, estendendo ao maior número possível de pessoas a possibilidade de compreender e transformar a realidade à sua volta.
Como Universidade Corporativa, a empresa abrange sua clientela, estendendo agora suas ações de educação a todos os seus funcionários e à sociedade em geral. Essa abrangência de público, incluindo todos os funcionários da empresa, é vital para o sucesso de uma Universidade Corporativa (EBOLI, 2004).
A instituição está instalada em dois escritórios da empresa, nas duas maiores cidades do Sudeste do país, porém, quando necessário, a empresa aluga salas ou grandes hotéis para realização de seus eventos. Os prédios onde está instalada a Universidade Corporativa X foram construídos especificamente para este fim e contam com salas equipadas com o que há de mais moderno, além de ter móveis ergonômicos e até mesmo uma galeria de arte (BRISSAC, 2005).
Além disso, a empresa ainda criou um espaço equipado com CD, DVD, livros, laptops, computadores ligados à Intranet da empresa e material multimídia, com o objetivo de facilitar a consulta dos colaboradores.
Como ferramentas pedagógicas, esta Universidade Corporativa conta com wokshops, programas de imersão, cursos, palestras, programas de desenvolvimento e projetos de endomarketing.
Em relação aos cursos, a Universidade abrange os níveis de ensino técnico e de pós-graduação lato sensu, com o curso de MBA “X Bussiness Administration”, voltado aos executivos da empresa. Inclusive esta “pós-graduação”, que ocorre através de uma parceria com a Coppeadii[i], é chancelada pelo MEC, o que significa dizer que é oferecida uma certificação reconhecida pelo Ministério da Educação.
Outra vez seguindo a tendência, a empresa inicia cursos à distância, através do e-learning. Esta modalidade de ensino possibilita aos alunos realizarem o curso de qualquer computador, via Internet, desde que o funcionário tenha uma senha de acesso. Durante o curso, ao final de cada mês, um executivo da empresa é convidado a dar uma palestra aos alunos por meio de teleconferência. A empresa recebe relatórios de gerenciamento, através dos quais é possível avaliar o grau de aproveitamento do curso por cada funcionário em seu dia-a-dia na companhia. Apesar do custo da educação à distância ser menor, a instituição tem preferência pelos cursos presenciais, uma vez que o contato físico facilita a disseminação dos conteúdos e da filosofia da empresa, já que os cursos são ministrados em sua maioria pelos próprios executivos da empresa.
Segundo Morgado (apud BISPO, 2003), “70% da estrutura do curso vem sendo conduzida pelos executivos da empresa, uma vez que eles conhecem a realidade da empresa e podem repassar informações compatíveis com o cotidiano vivido pelos demais colaboradores”. Entretanto, verificamos que o único curso chancelado pelo MEC – o MBA – é ministrado pelos docentes da Coppead. Na pesquisa de campo, pudemos perceber que a formação exigida a estes “professores” vai depender do curso: “Nós temos inúmeros professores com mestrados, com douto..., professores não executivos, perdão, são também executivos que são professores! Mas com mestrado, com doutorado, e com uma grande bagagem em termos de negócios” M.iii (2007).
Outra forma de disseminar a filosofia da empresa é através dos programas. Hoje a Universidade Corporativa X conta com uma grande variedade de programas. Um exemplo destes destinado somente aos funcionários e que tem como objetivo implícito a disseminação da filosofia da empresa, é o programa “Saber X”, cujo objetivo é apresentar especificamente informações sobre o negócio e a cultura organizacional da empresa. No ano de 2007, outro programa ganhou destaque, tendo como objetivo buscar excelência nos serviços.
É importante ressaltar que a alta cúpula da empresa abraçou esta iniciativa, que segundo uma de suas analistas, facilitou o trabalho, afirmando uma das características das Universidades Corporativas (Eboli, 2004). A metodologia utilizada são os workshops, pois segunda esta, tal modelo é rápido, dinâmico e facilita a troca de informações.
Outros programas desenvolvidos pela empresa são os programas ditos de “Responsabilidade Social”, cujo objetivo é consolidar a empresa no imaginário social como uma empresa compromissada com a sociedade, que zela e pensa em prol da melhoria e do crescimento desta. Um exemplo de tal prática é o programa destinado a um segmento do ensino fundamental cujo objetivo é levar noções básicas de medicina preventiva e de primeiros socorros aos jovens.
A Universidade Corporativa X conta com a parceria de algumas instituições de ensino acadêmico, como a Coppead (Escola de Negócios da UFRJ), a Fundação Getúlio Vargas, dentre outras.
No que concerne ao assunto de certificação, a Universidade Corporativa X tem uma peculiaridade: ela está mais preocupada em que o mercado perceba e emita valor ao seu certificado, conforme afirma M. (2007): “Uma certificação da universidade X [...] é altamente valorizada no mercado [...] Não é um paper de um certificado, mas que é muito mais do que um papel, na verdade é toda uma experiência que a pessoa recebeu”.
A empresa investe alto na educação, são em torno de 5 milhões anuais o investimento na Universidade Corporativa.
Segundo M. (2007), o conceito de saúde trabalhado pelas Universidades Corporativas é baseado na prevenção. Este conceito permeia todas as atividades e cursos da empresa. “O posicionamento do grupo X no mercado se diferencia de outras operadoras de saúde, porque o nosso foco é na saúde e não na doença. [...] A nossa proposta é a prevenção mesmo, é evitar que o fato venha acontecer”.
Como uma empresa cujo negócio são planos de saúde estaria baseando suas ações na prevenção se, pela lógica, lucraria mais com a doença? Percebemos que a empresa deseja a prevenção, não por zelar pelo bem-estar social, mas por lucrar com a não utilização do serviço pelo cliente. Quando o cliente paga por um serviço que não utiliza, quem lucra é a empresa.
V – CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A Educação Corporativa objetiva, por meio das suas estratégias educacionais, disseminar a filosofia empresarial, internalizando no trabalhador a consciência de uma grande equipe através de “uma nova subjetividade [...] forjada: a do trabalhador ‘colaborador’” (OLIVEIRA, 2004, p.77).
Através das ações educativas do capital percebemos a atuação da Teoria do Capital Humano e da Teoria do Capital Intelectual. Ao utilizar a educação como “meio” para o desenvolvimento social, espera-se uma rentabilidade maior para o colaborador e, em especial, para empresa (Teoria do Capital Humano). Já a Teoria do Capital Intelectual é posta em prática quando possibilita ao capital a expropriação, o domínio e controle do conhecimento tácito.
Percebemos que o “conhecimento” adquirido pelos indivíduos nas unidades de educação corporativa, em geral, tem por parâmetro os interesses do mundo empresarial, pouco (ou nada) contribuindo para que o sujeito não seja capaz de pensar criticamente sua realidade dentro e a partir do mundo do trabalho. As informações recebidas por ele se limitam ao ambiente empresarial e são em grande medida descartáveis fora da esfera da execução, não oferecendo, assim, contribuição para a possibilidade de desenvolver sua consciência.
Compreendemos que a educação corporativa, alicerçada pela estrutura do capital e disseminada através das políticas neoliberais, tende a fazer da educação uma formação reduzida e instrumental do ser humano, uma vez que o objetivo destas unidades está na disseminação da filosofia empresarial por parte dos colaboradores e clientes.
Este modelo de educação limita o homem, dado que o valor fundamental do processo educativo consiste na disseminação da filosofia da empresa para funcionários e sociedade em geral, como instrumento de adesão ideológica e consolidação de hegemonia (SANTOS, 2007, ABRASCO).
Entendemos que somente na construção de um novo bloco histórico está a base para uma sociedade mais justa e igualitária; nas ações de intelectuais orgânicos, sobretudo de educadores e outros trabalhadores com visão crítica, engajados na luta contra a estrutura neoliberal. Nas ações contra-hegemônicas estão a possibilidade de uma educação que entenda o trabalho como princípio educativo, no sentido ontológico.
Gramsci propôs a Escola Unitária como ferramenta para enfrentar as ações burguesas. Cabe a nós, críticos do modelo de educação corporativa, retirar desta teoria os fundamentos para a práxis, adotando-a nas ações contra esta onda gigante que limita a formação humana, usurpa do conceito de universidade e desqualifica o papel do educador.
Antonio Gramsci diz, por exemplo, que a escola profissional não pode ser uma incubadora de monstros áridos, de olhos ágeis e mãos firmes, sem cultura geral, sem alma [...] E o que se vê na formação em saúde das Universidades Corporativas é provavelmente a criação de monstros áridos, de olhos ágeis e mãos firmes (SANTOS, ABRASCO, 2007).
Mészáros insere a necessidade de pensarmos a educação para além do capital, tirando o ato educativo do nexo mercadológico. “É [...] necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente” (MÉSZÁROS, 2005, p.27).
A educação deve ser concretizada no seu sentido amplo. Somente desta forma estaríamos transformando o contexto social, educando e reintegrando o homo faber ao homo sapiens. Para Mészáros:
[...] a mais ampla das concepções de educação nos pode ajudar a perseguir o objetivo de uma mudança verdadeiramente radical, proporcionando instrumentos de pressão que rompam com a lógica mistificadora do capital. (MÉSZÁROS, 2005, p.48)
É perceptível que as ações educativas da Universidade Corporativa X em nada condizem com o ideal de educação pautado pelo nosso referencial teórico – Gramsci e Mészáros. A Universidade Corporativa X tem por finalidade a disseminação da sua cultura e, através do novo programa que busca a excelência nos serviços, a instituição reitera sua filosofia a todo corpo funcional. Como um mantra, são disseminadas formas de pensar pela instituição, e internalizados pelos colaboradores pensamentos como: “trabalho em equipe”, “a empresa é uma família”, “educação corporativa é a minha oportunidade” etc.
Na Universidade Corporativa X, a comunidade é atingida através das ações de Responsabilidade Social, onde a empresa atua com o seu capital de marca frente à sua atuação, criando neste público a percepção da empresa como uma amiga social.
O papel do docente é esvaziado no âmbito da Universidade Corporativa X, quando utiliza-se um executivo ou gerente sem nenhuma preparação pedagógica e didática para atuar como educador. Somente no curso de MBA atuam docentes com formação para tal, todavia, estes são oriundos da Coppead da UFRJ, nos demais cursos e treinamentos o educador é substituído por um por alguém com cargo de chefia, que está mais apto para impor o pensamento da corporação.
Podemos concluir que a Educação Corporativa, em especial a Universidade Corporativa X, utiliza a educação como finalidade mercadológica, não abarcando uma concepção ampla de educação, desta forma limitando a formação humana, tornando o processo educativo utilitarista e instrumental.
Será que a este processo podemos chamar de educação?
VI – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
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KOSIK, KAREL.Dialética do Concreto. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
LÜDKE, Menga & ANDRÈ, Marli E D A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
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MÉSZÁROS, István. A Educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.
MEISTER, Jeane C. Educação corporativa. São Paulo: Makron Books, 1999.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: princípios e procedimentos .5 ed. Campinas, SP: Pontes, 1999.
QUARTIERO, Elisa Maria & BIANCHETTI, Lucídio. (Org). Educação corporativa: mundo do trabalho e do conhecimento: aproximações. São Paulo: Cortez, 2005.
RIBEIRO. Nayla Crisitine Ferreira. Educação Profissional em Saúde no interior das Universidades Corporativas. Estudo de caso da Universidade Corporativa X. In: ENCONTRO NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO, 13, 2006, Recife. Anais...Pernambuco: 2006. 1 CD - ROM.SANTOS, Aparecida de Fátima Tiradentes dos. Desigualdade social e dualidade escolar: conhecimento e poder em Paulo Freire e Gramsci. Petrópolis/ RJ: Vozes, 2000.
_______________________________________. Teoria do capital intelectual e teoria do capital humano: Estado, capital e trabalho na apolítica educacional em dois momentos do processo de acumulação. In: ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO, 27, 2004, Caxambu. Anais eletrônicos... Minas Gerais, 2004. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt09/t095.pdf>. Acessado em: 12 fev. 07.
ALMEIDA, Thalita. RIBEIRO, Nayla. SANTOS, Aparecida. SANTOS, Carla. Prevenção, promoção ou modelo hospitalocênctrico: O modelo de educação profissional em Saúde em uma universidade corporativa. In: Congresso Mundial de Saúde Coletiva/Congresso Brasileiro de Saúde coletiva da ABRASCO (Associação Brasileira de Pós-graduação e Pesquisa em Saúde Coletiva/ Congresso da Associação Latino americana de Saúde Coletiva, 2007, Salvador. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. Rio de Janeiro-(Fiocruz) : ABRASCO-Associação Brasiliera de Pós Graduação em Saúde Coletiva, 2007. v. 1. p. ---.
i Este título remete à reportagem do Jornal O Globo de 30 de Outubro de 2007.
ii Instituto de pós-graduação e pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conhecida como Escola de Negócios.
iii Nome fictício da Gerente de RH da Instituição é responsável pela Universidade Corporativa.
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