EDUCAÇÃO CORPORATIVA
Verbete Publicado em : EPSJV, Dicionário de Educação Profisisonal em Saúde. Rio de Janeiro, Ed FIOCRUZ/EPSJV, 2009.
Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos
Nayla Cristine Ferreira Ribeiro
Modelo de formação de trabalhadores e da comunidade adotado por empresas de todos os setores da economia, que tem como objetivo “[...] institucionalizar uma cultura de aprendizagem contínua, proporcionando a aquisição de novas competências vinculadas às estratégias empresariais [...]” (QUARTIERO & CERNY, 2005:24).
Segundo Jeanne Meister (1999), além da finalidade imediata de treinar trabalhadores para o desempenho de suas funções, como tradicionalmente fizeram os setores de desenvolvimento de Recursos Humanos, a Educação Corporativa, é um “guarda-chuva estratégico para desenvolver e educar funcionários, clientes, fornecedores e comunidade, a fim de cumprir as estratégias da organização” (p.35).
Este fenômeno em crescente expansão, tem como sustentação a chamada “sociedade do conhecimento”, “cujo paradigma é a capacidade de transformação [...] do indivíduo social através do conhecimento (MANANGÃO, 2001:9) . Um “novo trabalhador” é exigido neste contexto, que enfatiza “as competências” através de um “comportamento independente na solução de problemas, a capacidade de trabalhar em grupo, de pensar e agir em sistemas interligados, e de assumir a responsabilidade no grupo de trabalho (QUARTIERO & CERNY, 2005:28 apud MARKERT, 2000:185).
No discurso capitalista, a Educação Corporativa se justifica pela incapacidade do Estado em fornecer para o mercado mão-de-obra adequada. Sendo assim, as organizações do capital chamam para si esta responsabilidade, defendendo o deslocamento do papel do Estado para o empresariado na direção de projetos educacionais (ver Capital Intelectual). “As empresas [...] ao invés de esperarem que as escolas tornem seus currículos mais relevantes para a realidade empresarial, resolveram percorrer o caminho inverso e trouxeram a escola para dentro da empresa” (MEISTER, 1999, p. 23).
Este modelo abrange uma gama ampla de modalidades, que se ramifica desde a educação não-formal até a educação formal em todos os níveis. Há programas de Educação Básica, Educação Superior (incluindo a pós-graduação) e Educação Profissional, com destaque para cursos técnicos.
Histórico:
O modelo de Treinamento e Desenvolvimento (os T&D) foi considerado obsoleto pelo “novo modelo produtivo” – a acumulação flexível:
[...] as características de um setor de Treinamento e Desenvolvimento padrão se tornaram tão desgastadas que melhorias ou mesmo uma reengenharia mais forte não seriam suficientes para adequá-lo às novas necessidades de educação no espaço das organizações (QUARTIERO & CERNY, 2005:34).
Neste contexto emergiu na década de 1950 nos Estados Unidos, a Educação Corporativa, que se intensifica no Neoliberalismo. Naquele momento as empresas investiam nesta modalidade com o intuito de ensinar aos trabalhadores “o como fazer”. Visava à troca de experiências entre os trabalhadores, o que possibilitava um maior comprometimento destes com a instituição que na qual trabalhavam (Martins, 2004). As empresas que iniciaram este movimento tinham como foco “desenvolver qualificações isoladas, para a criação de uma cultura de aprendizagem contínua, em que os funcionários [aprendessem] uns com os outros e [compartilhassem as] inovações e melhores práticas com o objetivo de solucionar problemas empresariais” (MEISTER, 1999:21).
No Brasil, a Educação Corporativa emerge na década de 1990 com a política neoliberal implementada no então governo Fernando Collor de Mello, no quadro de abertura econômica que impulsionou a ideologia da competição para o mercado globalizado. Este modelo educacional assumido pelas empresas surgiu “no auge do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade – PBQP” (MARTINS, 2004:10).
Características da Educação Corporativa:
Espaço Físico – Segundo Martins (2004), as unidades de Educação Corporativa, tem o espaço físico mais como um conceito do que uma realidade. As estratégias pedagógicas podem ocorrer através da educação presencial, à distância ou semi-presencial. Há instituições que atuam apenas em espaços virtuais, através da modalidade da Educação á Distância – EAD –, ou o e-leraning – aprendizado eletrônico –, propiciando maior flexibilidade do treinamento, uma vez que o aluno tem “mais liberdade para escolher o local e a hora para aprender, [além de proporcionar] a redução do custo” (BLOIS E MELCA, 2005, p.59); existem instituições que contam com espaços físicos, próprios, direcionados aos treinamentos dos seus funcionários, e eventualmente, utilizam espaços acadêmicos ou hotéis.
As novas tecnologias: As denominadas novas tecnologias educacionais viabilizam a expansão do modelo. Através da Educação à Distância a “qualificação dos funcionários é realizada em um tempo menor e com custos reduzidos, salientando que a economia de tempo pode chegar a 50%, e de custo a 60%, em relação aos cursos presenciais” (QUARTIEIRO e CERNY, 2005, p.37). Através das ferramentas tecnológicas, o trabalhador pode aprender por meio de videoconferências, de cursos ministrados pela Internet, ou até mesmo pela Intranet da empresa. Neste contexto, não existe mais a necessidade do trabalhador ausentar-se para fazer a capacitação, uma vez que o conhecimento “vai a ele”.
Público-alvo, atende aos “colaboradores internos” – os funcionários –, “os colaboradores externos” – os familiares dos funcionários, fornecedores e a comunidade em geral que é atendia, principalmente, através das ações de responsabilidade social. A literatura argumenta ser necessário que a Educação Corporativa atinja toda a cadeia de valor, ou seja, toda a sociedade, visto que no léxico neoliberal cidadania aproxima-se de consumo.
Corpo docente: Observamos uma tendência de desprofissionalização docente no modelo e de distanciamento entre prática pedagógica e formação pedagógica. Cerca de 70% dos docentes são os próprios gerentes e executivos das instituições corporativas, enfatiza-se a atuação deste como forma de “agregar valor à cadeia produtiva” (MARTINS, 2004:44). A utilização dos gerentes traz um duplo benefício ao conhecimento organizacional:
[...] receber gerentes [...] não apenas para ensinar os conceitos que utilizam todos os dias na sua vida profissional, mas também para adequar esses conceitos à realidade dos [“colaboradores”]. [...] [Além],das vantagens econômicas. Em vez de contratar facilitadores profissionais, [usa-se] a própria força de trabalho” (MEISTER, 1999:22).
Certificação: A maior dificuldade encontrada pelas empresas está na certificação dos cursos, uma vez que o Ministério da Educação autoriza a emissão de diplomas somente por instituições acadêmicas. A estratégia encontrada pelas empresas foi realizar parcerias com as “Universidades Tradicionais” – nomenclatura pela qual o mundo corporativo denomina as Universidades Acadêmicas.
Estas parcerias podem ocorrer para validar a certificação dos cursos, como também para formatar um curso de acordo com a encomenda da empresa. Existem parecerias das empresas tanto com escolas e universidades públicas, quanto privadas.
Considerações Críticas:
A Educação Corporativa expande-se e se sustenta no atual modelo de produção, acumulação flexível. Neste contexto, exige-se um “novo trabalhador”, mais familiarizado com a estrutura e estratégias mercadológicas da organização. Este processo é assegurado pela educação continuada, agora considerada essencial para o sucesso empresarial, uma vez que os valores e conteúdos da formação adotada pela empresa fundamentam-se em seu próprio thélos. Quando pretende expandir-se por toda a cadeia de valor, a organização empresarial assume a função social de educadora de toda a sociedade, pautando a formação humana nos princípios da competitividade e da produtividade, alienando do processo educativo os valores crítico-emancipatórios.
A utilização dos gerentes e executivos como docentes para “melhor disseminar a estrutura corporativa”, além da diminuição dos custos, uma vez que aproveita-se o próprio pessoal para difundir a filosofia institucional, reporta à idéia de que a função docente não requer formação pedagógica.
O uso de ferramentas tecnológicas que possibilitam o aprendizado em qualquer espaço representa o devassamento do tempo-espaço privados do trabalhador, para além de minimizar os custos. Propaga-se recorrentemente a idéia de que o trabalhador não necessita ausentar-se do seu espaço de trabalho para estudar, podendo fazer isso em casa, em sua hora de folga. Além do devassamento do seu tempo e espaço pessoais, o modelo avança na tentativa de captura da subjetividade do trabalhador, dada a relevância aos conteúdos éticos e atitudinais corporativos assumidos pelo modelo.
A partir da concepção gramsciana sobre formação humana, podemos definir a Educação Corporativa como “escola interessada”, ocupando-se da formação conveniente aos interesses do capital.
Bibliografia:
ALMEIDA, Thalita. RIBEIRO, Nayla. SANTOS, Aparecida. SANTOS, Carla. Prevenção,
promoção ou modelo hospitalocênctrico: O modelo de educação profissional em Saúde em
uma universidade corporativa. In: Congresso Mundial de Saúde Coletiva/Congresso Brasileiro de Saúde coletiva da ABRASCO (Associação Brasileira de Pós-graduação e Pesquisa em Saúde Coletiva/ Congresso da Associação Latino americana de Saúde Coletiva, 2007, Salvador. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. Rio de Janeiro-(Fiocruz): ABRASCO-Associação Brasiliera de Pós Graduação em Saúde Coletiva, 2007. v.1. p. ---.
BLOIS, Marlene e MELCA, Fátima; apresentação NISKIER, Celso. Educação Corporativa:
novas tecnologias na gestão do conhecimento. Rio de Janeiro. Edições Consultor, 2005.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Tecnologia Industrial. Educação Corporativa no contexto da Política Industrial, Tecnológica e do Comércio Exterior. Atividades de educação corporativa no Brasil, Belo Horizonte, MG, jun. 2006.
EBOLI, Marisa. Educação Corporativa no Brasil: Mitos e Verdades. Editora Gente. São Paulo, 2004.
GRAMSCI, A. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
GRAMSCI, Antonio. Escritos Políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. Volume1.
MANANGÃO. Kátia Christian Zanatta. Universidade Corporativa: um mecanismo do aparelho ideológico educativo. 2003. Trabalho de Conclusão de Curso (Mestrado em Educação – Universidade Católica de Petrópolis, Petrópolis, 2003).
MARTINS, Herbert Gomes. Estudos da Trajetória das Universidades Brasileiras. 2004. Trabalho de Conclusão de Curso (Doutorado em Engenharia – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004).
MEISTER, Jeanne C. Educação corporativa. São Paulo: MAKRON Books, 1999.
QUARTIERO, Elisa Maria & BIANCHETTI, Lucídio. (Org). Educação corporativa: mundo do trabalho e do conhecimento: aproximações. São Paulo: Cortez, 2005.
RAMOS, Giovane Saionara. Um novo espaço de (con) formação profissional: a Universidade Corporativa da Companhia Vale do Rio Doce - VALER e a legitimação da apropriação da subjetividade do trabalhador. 2007. (Mestrado em Ensino de Biociências e Saúde – Instituto Oswaldo Cruz/ FIOCRUZ. 2007).
RIBEIRO. Nayla Crisitine Ferreira. Educação Profissionbal em Saúde no interior das
Universidades Corporativas. Estudo de caso da Universidade Corporativa X. In: ENCONTRO NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO, 13, 2006, Recife.
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SANTOS, Aparecida Fátima. Tiradentes dos. Teoria do capital intelectual e teoria do capital humano: Estado, capital e trabalho na apolítica educacional em dois momentos do processo de acumulação. In: ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO, 27, 2004, Caxambu. Anais eletrônicos... Minas Gerais, 2004. Disponível em:<http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt09/t095.pdf >. Acessado em: 12 de fevereiro de 2007.
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