“Os segredos dos bons professores” e os segredos dos “fabricantes” de “bons professores”
Aparecida Tiradentes
Publicado no Jornal do Professor do Sinpro-Rio (http://www.sinpro-rio.org.br/) maio de 2010
A matéria de capa da Revista Época (Ed Globo, 26 de abril de 2010), intitulada “Os segredos dos bons professores”, constitui ataque inaceitável à dignidade daqueles (as) que fazem da educação o seu trabalho, seu compromisso com a construção de uma sociedade melhor.
Antes de comentar seu conteúdo, é necessário contextualizar a reportagem: não é, como se poderia supor, um ato isolado de um veículo de comunicação “interessado” na melhoria da qualidade da educação e que recorre a um repertório de macetes técnicos, desprezando, por desconhecimentos, o suporte teórico constituído pelas Ciências da Educação. Trata-se, na realidade, de um dos elementos do conjunto orgânico de peças que se combinam para realizar a reconfiguração do trabalho docente e do papel da educação, com vistas à adequação desta atividade à “era do mercado”. Os elementos, as críticas e as soluções apresentadas na matéria nada possuem de original, traduzindo fielmente o projeto neoliberal para a educação, desenhado por organismos internacionais como OCDE, OMC , Banco Mundial, PREAL etc.
Do ponto de vista da gestão do trabalho docente, a matéria apresenta propostas bastante conhecidas em outros setores que adotam os “novos modelos” capitalistas: avaliação de desempenho; substituição de mecanismos coletivos como planos de carreira, por avaliação individual de competências; remuneração variável segundo o “mérito” individual; busca obsessiva pela “produtividade”, pela “eficiência” e “eficácia”, pelo corte de custos e de “desperdícios”; padronização dos produtos e processos para obedecer aos perfis de qualidade do mercado.
Do ponto de vista pedagógico, a padronização/mediocrização do trabalho docente em favor de uma suposta eficiência exige o retorno a bases pedagógicas de um tecnicismo que beiraria à ingenuidade, não fosse sua astúcia.
A matéria fala de instituições, como a Fundação Leman, que têm como missão monitorar a Educação Básica, entender como trabalham os bons professores. Sendo uma Fundação vinculada ao grande mercado, ao GP Grupo de Investimentos que, dentre outras empresas, controla cervejarias e universidades privadas, já é possível decodificar sua concepção de educação e sua obsessão pelo controle do trabalho docente.
A Fundação e a matéria da Época alegam buscar os segredos dos bons professores. Esta busca do segredo dos bons profissionais tem sido observada no pior estilo empresarial contemporâneo de expropriação do conhecimento tácito do trabalhador, do seu “jeitinho pessoal de fazer”, a fim de poder descartá-lo sem danos para a produtividade. Afinal, ele já agregou valor, já entregou seu saber à empresa. Se sair, não haverá danos de produtividade.
O problema aqui, na busca dos “segredos dos bons professores”, já se inicia com o próprio conceito do que é ser um bom professor. O texto desvela sua face quando deixa claro que ser um bom professor é ser um bom “instrutor”, um bom adestrador. Um ser obsessivamente conduzido pela busca de “produtividade” e que deixa fora de sala tudo o que não se relaciona com o conteúdo. O exemplo da professora que coloca fora de sala as duas meninas que estão discutindo por causa do lápis de cor é emblemático. No mundo da qualidade do mercado, não cabem conflitos. Acidentes de percurso decorrentes do complexo mundo dos relações interpessoais e sociais não podem ser acolhidos e trabalhados pedagogicamente numa escola neuroticamente subordinada aos ditames do mercado. O “desperdício de tempo” de um pedagogia dialógica não cabe ali. Desvios de rota “atrapalham”, acarretam “perda de tempo”, o mercado não quer isto. O imprevisto deve ser extirpado.
Sepulta-se a idéia de professor desequilibrador de Piaget, aquele que compreende os conflitos (cognitivos e simbólicos) como deflagradores da desequilibração, da busca pela resposta, da insatisfação com a velha resposta já acomodada. Sepulta-se o professor que entende a busca pela resposta como o movimento cognitivo que permite o desenvolvimento da inteligência. Interessa desenvolver a inteligência? Claro que não!
Resgata-se a idéia de professor “engenheiro comportamental” de Skinner, seu condicionamento operante construído com os ratinhos, sua Tecnologia Educacional behaviorista. Recupera-se também despudoradamente o determinismo biológico e suas justificativas para as diferenças. Elimina-se assim o universo da subjetividade. Educação reduz-se a ensino, e ensino a instrução, no pior modelo estímulo-resposta-reforço das cobaias de Skinner.
O professor não aceita nada menos do que aquilo que está 100% certo, afirma orgulhosamente a matéria. O que é 100% certo? Sob que concepção de ciência? Que mentalidade científica se gera em alunos “fabricados” assim? Aquela dos fatos sociais do Positivismo: coercitivos, generalizáveis e exteriores, aos quais o cidadão somente “assiste” e acata, sem qualquer protagonismo. E, principalmente, sem qualquer impulso transformador e criador. É preciso destruir a dimensão humana e criadora do trabalho docente para que se assegure a produção de novos trabalhadores igualmente desumanizados e apáticos, conformistas e canibalizados, como diz a matéria, no assustador elogio aos professores canibais.
Este modelo de magistério há vinte anos seria considerado uma vergonha, marca de um passado onde a ditadura civil-militar que devastou a América Latina havia lançado mão do tecnicismo pedagógico no projeto de aniquilar corações e mentes dissidentes, para não necessitar das baionetas sempre. Hoje o aniquilamento do sentido da Educação como prática política é louvado por sua eficácia, por sua adequação às necessidades do capitalismo. A dimensão transformadora da educação dá lugar à subordinação. Um a subordinação envergonhada diante dos índices que tudo justificam.
A escola abre mão de educar. Só assim, segundo a Revista Época, Fundação Leman e similares, se alcançam os resultados exigidos pelo cliente mercado. E é isto que importa.
Seja o mercado de trabalho, seja o mercado-economia.
Concepção pedagógica e gestão do trabalho se fundem numa alquimia de prêmios e castigos, desvalorização do conhecimento, desprezo pela teoria, “endeusamento” das técnicas. O mito do “saber como fazer” apaga a necessidade de “saber por que fazer, para que fazer, pra quem fazer”.
Para o projeto neoliberal personificado aqui pela Revista Época e Fundação Leman, ser bom professor é dominar técnicas, é saber “fisgar o aluno”. E nos perguntamos: Para que? Para que projeto de sociedade, de humanidade? Ah, para Época e Leman, isto é o mercado que responderá. “Os cursos de Pedagogia, com suas sociologias e filosofias, não servem para nada”. Ou melhor, apenas agregam capital cultural ao professor, mera ilustração, mas que não incidem em ações práticas eficazes, “que são o que determinam o sucesso do professor”.
Não é por acaso que a matéria, ao fazer este tipo de crítica infame à formação científica e filosófica do professor, não fala em formação, mas em treinamento de professores. E não fala em estudiosos das teorias educacionais, mas em gurus de auto-ajuda, em gurus da administração de empresas. Não fala de livros científicos e filosóficos, mas em infâmias intituladas “49 técnicas”. O treinamento, argumenta orgulhoso Lemov, o adestrador de professores, não utiliza nenhum livro, nenhuma teoria, somente vídeos motivacionais e técnicos que transformam professores em canibais. A imagem de canibalismo diz tudo. O trabalho no capitalismo contemporâneo opera exatamente neste sentido da “corrosão do caráter”, como alerta Sennett. Podemos utilizar a metáfora de Lemov pra compreender, com Sennett, que a gestão do trabalho transforma trabalhadores em canibais destruindo-se mutuamente. Transforma a solidariedade de classe em autodestruição coletiva em nome de uma suposta vitória individual, lança trabalhador contra trabalhador, na busca frenética pela melhor posição no ranking das melhores práticas. Isola-o, fragiliza-o, desumaniza-o, corrói.
Tudo em nome das “melhores práticas”. E entende-se melhores práticas com um conjunto de passos padronizados e ritualizados que caracterizariam o “bom professor”. Basta conhecer alguns macetes, como circular pela sala de aula, que estarão resolvidos os problemas do fracasso escolar.
Ser educador é um projeto infinitamente maior do que isto!
Mais do que resgatar a dignidade do trabalho docente, denunciar o espírito dessa reportagem é uma exigência a todos os que conservam sua capacidade de indignar-se. A todos os que vêem sentido na luta contra a naturalização da barbárie. A todos os que compreendem a Educação para além de sua função econômica, mas, sobretudo a tomam em sua dimensão política de compromisso transformador.
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