domingo, 26 de setembro de 2010

O PREAL e o Trabalho Docente

A PROPOSTA DOS EMPRESÁRIOS PARA A EDUCAÇÃO ATRAVÉS DO PREAL – UM ESTUDO SOBRE O GT PROFISSÃO DOCENTE

Aparecida Tiradentes (FIOCRUZ / FAPERJ)
Beatriz Pereira Teixeira da Silva (UERJ)
Luiza de Morais Candal (UFRJ/ FIOCRUZ/CNPq)
           Nayla Ribeiro (EPSJV/FIOCRUZ/FAPERJ)


RESUMO:
O capital, na construção de condições favoráveis à reestruturação da década de 1990, intensificou sua ação sobre a educação formal, através de uma série de prescrições produzidas pelos organismos internacionais. Neste contexto, emerge o Programa de Promoção das Reformas Educacionais na América Latina – PREAL. Este organismo, concebido e desenvolvido pelos empresários de grandes conglomerados transnacionais, tem como finalidade subordinar os países da América Latina a seu ideário, por meio de reformas educacionais. Nos últimos anos, observamos a adesão progressiva de intelectuais, que vão assumindo a formulação das políticas em nome e em favor dos empresários. Segundo este organismo, um dos principais entraves para a reforma educacional do mercado é representado pelos profissionais da educação, especificamente os docentes (em suas organizações ). Esta categoria é definida pelo organismo como o principal obstáculo às reformas educacionais neoliberais, principalmente por sua mobilização sindical. Assim, o PREAL vem nos últimos anos produzindo uma série de documentos – artigos, boletins técnicos, informes, entre outros – com teor de desqualificação dos docentes. Em vários textos, o organismo define a carreira do magistério como composta por indivíduos pouco qualificados e de QI inferior, acomodados e refratários a desafios. Os mecanismos coletivos, como planos de carreira, contribuiriam para a acomodação e baixo grau de eficiência dos docentes. Alega que, por tratar-se de uma profissão eminentemente feminina, seus rendimentos seriam complementares aos do cônjuge, na condição de ingresso “auxiliar” na renda familiar. Buscamos neste trabalho discutir o PREAL, o contexto no qual surgiu, sua base estrutural e características. Dentre os três grupos de trabalho – Profissão Docente; Padrões e Avaliação; Gestão Escolar – que o organismo mantém, nos limitaremos aqui ao GT Profissão Docente, por ser o mais expressivo em sua estratégia de afirmação do capital que busca (con)formar a classe trabalhadora ao novo modelo produtivo e de divisão internacional do trabalho e do capital.


Palavras-chave: Trabalho e Educação; Organismos Internacionais; PREAL; Profissão Docente.


INTRODUÇÃO

As investidas do capital objetivando à formação da força de trabalho necessária para a manutenção da ideologia dominante a partir da sua reestruturação vêm se inscrevendo de forma acentuada desde o início da década de 1990 através de recomendações dos organismos internacionais. Neste âmbito, destaca-se nosso objeto de investigação, o PREAL – Programa de Formação das Reformas Educacionais na América Latina e Caribe –, que atua sob o comando dos empresários com colaboração crescente de intelectuais.
O PREAL foi fundado em 1996, a partir de um projeto de empresários vinculados a conglomerados transnacionais como Citybank, Motorola, GE, Discovery etc, com apoio do Diálogo Interamericano. Sua sede central localiza-se em Santiago, no Chile. Conta com financiamento da Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além de outros organismos como, por exemplo, Banco Mundial. No caso do Banco Mundial, a presença é bastante ostensiva na assinatura dos documentos.
 Integrando este programa e conferindo-lhe facilidade de projeção no meio acadêmico e político, estão intelectuais de grande expressão, muitos, inclusive com um passado de participação em lutas progressistas. Estes, como “intelectuais orgânicos” do capital, desenvolvem e/ou coordenam programas, compõem as redes internas ao PREAL, emprestando seus nomes à disseminação e reprodução da ideologia dominante, através das assinaturas em relatórios, documentos e artigos expostos no sítio eletrônico institucional.
Desde  sua origem, estavam claras no Programa as pretensões do empresariado de protagonismo sobre a formulação e implantação das políticas educacionais latino-americanas. Chegam ao ponto de autoproclamarem-se consumidores do “produto” da escola, que é a força de trabalho, lançando mão, por isto do “direito” de definir o que deve ser ensinado nas escolas. (SANTOS, 2004). No contexto neoliberal da redução de cidadania a consumo e no quadro de customização da produção de mercadorias ao gosto dos clientes, estes supostos clientes da escola, os compradores da mercadoria produzida ali, a força de trabalho, propõem que esta mercadoria esteja sob seu controle desde o momento de sua produção. Como o movimento sindical docente é considerado um obstáculo a tal concepção, propõem que se cooptem as lideranças sindicais e os intelectuais que constituem referências para o movimento. Caso se veja fracassada a tentativa de cooptação, dever-se-ia apelar para a repressão (SANTOS, 2004).
Atualmente o PREAL se compõe de três grupos de trabalho (GTs): Profissão Docente (ou Desenvolvimento Profissional Docente); Padrões e Avaliação; Gestão Escolar. Destaca-se pelo maior valor quantitativo a produção do GT Profissão Docente, que tem como pauta a análise da formação dos profissionais da educação, a mobilização sindical destes, o controle sobre seu trabalho, os entraves para a “reforma” no âmbito educacional, assim como perfil desta categoria. Buscaremos neste trabalho explorar o GT Profissão Docente, seu discurso, identificando a ação ideológica do capital neste setor em busca de controle e construção da hegemonia. Na primeira seção nos dedicaremos à contextualização histórica do programa e suas características específicas, trazendo ao leitor um panorama do organismo. Na segunda seção, faremos uma revisão de literatura sobre os organismos internacionais, em especial no tocante ao receituário apresentado à América Latina. E, na terceira seção, faremos uma síntese das discussões apresentadas pelo GT Profissão Docente a partir dos relatórios, boletins técnicos e artigos.      

O PROGRAMA DE PROMOÇÃO DAS REFORMAS EDUCACIONAIS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE – O PREAL

Nas últimas duas décadas, foi possível acompanhar a intensificação da força do capital sobre a educação dos países latino-americanos. Respaldadas em orientações do Consenso de Washington e Banco Mundial, as transformações políticas, econômicas e sociais ocorridas no contexto de consolidação da política neoliberal orientaram mudanças nas políticas publicas nos países latino-americanos desde a década de 1970. Partindo da atuação dos “intelectuais orgânicos” ao difundirem o discurso da negligência do Estado na promoção da educação, o capital passou a intensificar sua ação no campo educacional, alinhando suas estratégias mercadológicas à políticas de (con) formação. Esta intensificação, assim como o papel da educação enquanto objeto de conformação pelo capital, se materializa através das produções do PREAL fundado e financiado pela USAID em 1996.
A primeira reunião para criação do PREAL, realizada em 1995 no Chile, contou com a adesão de oito países: Brasil, Colômbia, Guatemala, Venezuela, República Dominicana, Equador, Nicarágua, Peru e Chile.  O organismo foi lançado a fim de mobilizar parcerias para atuar na educação numa perspectiva multinacional e teve como objetivo inicial a criação de uma comissão internacional de educação voltada a propor/ impor reformas à América Latina, através da elaboração de documentos de políticas educacionais. No sitio eletrônico do PREAL é possível encontrar as seguintes informações relacionadas à metas e objetivos do programa:

Contribuir para a melhoria da qualidade da educação mediante a promoção de debates relativo ao tema política educacional e reforma educativa; identificação e divulgação de boas práticas e o monitoramento do progresso educativo nos países da região. Objetivos envolver a sociedade no aperfeiçoamento das políticas educativas; monitorar o progresso para a melhoria da educação; difundir informações sobre temas de política e reforma à líderes de opinião, autoridade públicas e privadas (Retirado da página eletrônica do PREAL).

O PREAL é co-dirigido pelo Diálogo Interamericano, Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e Banco Interameicano de Desenvolvimento (BID).  Recebe financiamento destes organismos, dentre outros, como: Banco Mundial, Rede de Pesquisa Global para o Desenvolvimento, Associação Internacional para a Evolução da Educação Empresarial (IEA), Fundação Tinker, Fundação AVINA, Fundação GE, Fundação FORD. No Brasil, o Programa está vinculado à Fundação Getúlio Vargas, através do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) no Rio de Janeiro. Vem veiculando a necessidade de que se tomem providências quanto à emergência de “novos” paradigmas para a educação na América Latina e Caribe afim de que se atenda a demanda internacional. Sua declaração de princípios de 2001 propõe a articulação de todos os esforços junto aos governos nacionais para a implantação das reformas do mercado. (SANTOS) . Tem demonstrado, de fato,  influência nas esferas de decisão político-administrativas e na promoção das reformas educacionais dos países Latinos Americanos, como por exemplo, a publicação, pela série PREAL Documentos, das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio para o Brasil (SANTOS). A políticas e práticas de avaliação e “ranqueamento” da produtividade das escolas e o controle heterônomo sobre o trabalho docente difundidos na América Latina nos últimos anos, bem como a privatização indireta do sistema público de educação através da ingerência de órgãos privados contratados para capacitação docente, adoção de escolas, provas de medida do desempenho escolar organizadas por instituições da “sociedade civil” têm constituído demonstração inegável do sucesso dos propósitos iniciais declarados pelo PREAL.






A PROPOSTA DO CAPITAL PARA A EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA
A partir da crise estrutural[1] que colocou em questão a capacidade distributiva do Estado de Bem Estar no seio do capitalismo na década de 1970, formulou-se um ideário a fim de reestruturar a economia, e, sobretudo, conservar a ideologia capitalista. Neste contexto emerge uma série de organismos internacionais com finalidades específicas, mas com objetivos em comum: manter a hegemonia sobre os países periféricos. No tocante à conformação de mão-de-obra necessária e adaptada ao ideário hegemônico, o campo da educação ganhou destaque, inicialmente a partir da Teoria do Capital Humano, onde se compreendia que o investimento nesta área poderia trazer retorno financeiro ao indivíduo, e conseqüentemente o desenvolvimento social; e desde a reestruturação produtiva, a Teoria do Capital Intelectual, onde o capital passa a atuar como “agente educador”, seja através das ações nas unidades de educação corporativa[i], ou através de um receituário na educação formal, como no caso do PREAL.   Destacam-se na década de 1990 vários receituários dos organismos internacionais a fim de minimizar a pobreza nos países periféricos. A educação, em sua versão liberal, ganha destaque como solução para todas as mazelas sociais, obscurecendo as causas estruturais da desigualdade.
Os organismos internacionais na primeira metade da década de 1990 circunscrevem-se, [...] ao binômio pobreza e segurança, tendo como eixo articulador a imprescindível necessidade de adequação subordinada dos países periféricos à lógica da mundialização financeira. Nesta lógica, a educação passa a ser o principal instrumento de “alívio da pobreza” e para garantia de desenvolvimento (subordinado) dos países periféricos (LIMA, 2002: 45).

No caso específico do PREAL, onde os interessados diretos são os empresários, formuladores e propagadores de uma reforma “necessária” para a educação da América Latina, a solução dos problemas educacionais envolveria, basicamente a desmoralização do “Estado educador” e dos mecanismos coletivos na carreira docente. Lima (2002) acrescenta que o objetivo do capital nesta empreitada é a segurança da sua estabilidade econômica, “no sentido da adequação ao processo de mundialização financeira, da atualização da força de trabalho para responder às novas demandas da divisão internacional do trabalho” (p.52).  dizem ter como obstáculo para esta reforma os docentes, principalmente os sindicalizados. Assim, o programa através do GT Profissão docente vem desqualificando esta categoria como observaremos na seção seguinte.

PREAL E O TRABALHO DOCENTE


Deteremos-nos, nesta seção, na produção do Grupo de Trabalho Profissão Docente do PREAL. Este se constitui enquanto um grupo voltado para a análise de políticas direcionadas à formação inicial e continuada de docentes dos países latino-americanos que se encontram sob o domínio de influências do Programa. O GT tem como sede a universidade ORT do Uruguai, maior instituição privada de nível superior do país, é gerenciado por um coordenador e conta com um comitê executivo formado por seis especialistas, dentre os quais podemos destacar o brasileiro Marcelo A. Aguilar, professor da Universidade do Paraná. Além de divulgar experiências, o GT traz também estudos, informes e publicações mensais a fim de recomendar/propagar políticas e ideários voltados para o setor docente. Sob o argumento da busca pela melhoria da educação, os “intelectuais orgânicos” do PREAL formulam/defendem concepções nas quais centralizam e atribuem à prática e formação docente toda responsabilidade relativa ao fracasso/sucesso escolar latino-americano. Encontramos respaldo para tal afirmação em um artigo escrito pela coordenadora do grupo:

Desde hace algún tiempo los maestro y profesores están en el centro del ‘problema educativo’, pero también son el factor estratégico de sus solución y ello por razones que aparentemente son contradictorias y que Fullan (1993) resume en su muy citada frase ‘los docentes tiene el honor de ser, simultáneamente, el peor problema y la mejor solución en educación’ (VAILLANT, 2003: 8).

Alejandro Morduchowicz (2003), foca seus estudos na estrutura salarial e carreira dos docentes na América Latina e alega que há uma falta de incentivo para o “êxito” e exercício da profissão.
A insatisfação abrange, praticamente, todas as dimensões a elas vinculadas, desde o nível absoluto das remunerações até a existência (ou falta) de incentivos monetários que as ajustem: (a) às tarefas e ao desempenho dos próprios docentes nas escolas e (b) às necessidades dos sistemas educativos e, portanto, da sociedade em seu conjunto (2003:06).

Analisando a administração das organizações públicas, Morduchowicz (2003) aponta que a forma de aumento da remuneração vigente está vinculada ao tempo que o docente exerce sua profissão em uma determinada instituição. Baseado em pesquisas realizadas nos EUA, afirma que os estudos demonstram que a experiência influencia o exercício da profissão apenas no período dos primeiros anos de prática docente. Assim, a forma de remuneração predominante nos países da América Latina, com exceção do Chile, não estaria inserida dentro dos novos paradigmas econômicos, conforme o autor defende. Leia-se que a forma de remuneração alvo do ataque é a conquistada coletivamente, que deveria, segundo o PREAL, ser substituída pela remuneração por mérito, individualizada. Diante das análises, se estabelece uma relação direta entre a remuneração e “exercício” das “atividades desenvolvidas” no espaço escolar. O salário docente, para o PREAL, deverá se vincular lógica meritocrática e a resultados advindos do desempenho discente e de avaliações do desempenho do próprio docente. Através dessas avaliações, os docentes receberiam pontos que lhes serviriam para ascender na carreira hierarquicamente, de forma a romper com o que o autor denomina como “escalas salariais uniformes”, que além de não propor incentivos e competitividade, tão pouco estabelece penalidades monetárias a fim de discriminar o desempenho exercido pelo trabalho. O critério de avaliação proposto pelo especialista em seu estudo é baseado em competências, que envolveriam “o domínio e a prática de conhecimentos específicos vinculados às necessidades particulares da escola em que trabalham” (MORDUCHOWICZ, 2003: 15). Corroborando esta concepção, Xiaoyan Liang (2003) fez um levantamento sobre a remuneração dos docentes em doze países da América Latina, entre eles o Brasil. No estudo intitulado Remuneração dos Professores em 12 Países da América Latina: como se compara a remuneração dos professores com a de outras profissões; o que determina, e quem são o professores?, Liang traça um perfil dos professores latino-americanos, sem levar em consideração a especificidade de cada país, e comparando-os em todo o momento com os dados obtidos com os países da América do Norte e da Europa. Liang (2003) compactua com a tese do PREAL, ao afirmar que os docentes são bem remunerados se levarmos em conta os três meses de férias a que estes teriam direito. Em nenhum dos países estudados há atualmente os supostos três meses de férias escolares, mas este dado é ignorado por Liang. Vale ressaltar que a pesquisa apresentada pelo autor contrapõe os docentes a outras categorias de profissionais, todavia, ele não os define, e acrescenta que “há uma convicção generalizada de que os professores trabalham significativamente menos que os outros trabalhadores” (LIANG, 2003: 7). Além das questões relacionadas à remuneração, o autor atribui a escolha da profissão docente aos alunos de rendimento escolar inferior, afirmando que os estudantes com os  QI’s mais elevados não optam pela carreira do magistério. Acrescenta que esta é uma carreira majoritariamente feminina. As mulheres com pretensão de constituir uma família preferem a carreira de docente por trabalharem menos horas por dia podendo se dedicar aos filhos e ao conjugue, segundo o autor. O que também carece completamente de base empírica, dado que os professores acumulam vínculos em duas, três ou mais escolas para perfazer um salário minimamente compatível com suas necessidades básicas. Assim Liang (2003) traça o perfil dos docentes na América Latina: mulheres – em sua maioria –, com histórico de rendimento escolar baixo, tendo pretensão de trabalhar poucas horas por dia para se dedicar à família, acomodadas a tarefas rotineiras e que representam baixo índice de inovação.  De acordo com o autor, a profissão docente não é uma carreira exclusiva de um chefe de família. São salários complementares, sendo uma carreira das esposas dos chefes de família.  Qualquer estatística desmentiria esta versão tão caricatural e ultrapassada do universo do trabalho feminino
As concepções do PREAL compõem cotidianamente os discursos de políticos ligados à educação brasileira, como no caso do Secretário Estadual de Educação de São Paulo – e ex-Ministro da Educação no Governo de FHC –, o economista Paulo Renato Souza, que apóia ostensivamente as políticas propostas por este organismo, defendendo a lógica da meritocracia e o ranqueamento dos professores e das escolas.  Segundo ele, esta é a maneira de melhorar a educação e atrair os melhores estudantes para a carreira. Paulo Renato afirma que são os piores alunos saídos da universidade que optam pela carreira docente, esse ranqueamento tanto para o economista quanto para o PREAL se daria por meio de avaliações desses docentes e seus salários, conseqüentemente, estariam baseados nos resultados obtidos nessas avaliações. Outro nome ligado à política educacional brasileira, por meio do qual podemos reconhecer o PREAL em seu discurso, é o de Guiomar Namo de Mello.  Durante a década de 1990, Guiomar trabalhou como consultora de projetos do Banco Mundial, especialista sênior de educação deste mesmo organismo e também do BID com projetos educacionais direcionados a países da América Latina. Movida pelo anseio de propor uma “revolução educacional no Brasil”, baseou seu discurso na certificação de docentes alegando falta de meios de fiscalização Estatal sob o ensino e a avaliação dos resultados. As competências sugeridas por Guiomar Namo de Mello constituem-se enquanto fazeres pragmáticos voltados para a intervenção de problemas “diagnosticados” / provocados pelo Estado neoliberal.  São estratégias voltadas somente à obtenção de resultados imediatistas baseados em dados estatísticos que não buscam dialogar com o contexto no qual a instituição, o discente e docente encontram-se inseridos. Elas são baseadas em uma visão mercadológica, possuem caráter meramente tecnicista e visam a estimular a competitividade na busca por padrões que atendam os interesses do capital. 
      Quanto ao sindicalismo docente, os intelectuais do PREAL propõem meios para que este entrave seja impedido, conforme visto: a cooptação e a repressão. O organismo alega, por exemplo, que a bandeira de universalização levantada pelos sindicados docentes deve ser tomada como bandeira corporativista de ambição por aumento da oferta de trabalho, uma vez que, ampliando o acesso à educação, ampliar-se-ia o número de professores para dar conta da demanda.  Assim como as bandeiras de luta do sindicalismo docente, como a ampliação do acesso à educação, tem seu sentido invertido, sendo até acusadas de reserva de mercado e de “empregabilidade”, o PREAL regularmente inverte os sentidos dos termos utilizados pelos movimentos sociais. Em seus discursos, “acesso” tem o sentido de desperdício de investimento, pois afirmam que ampliar o acesso à educação de forma a contemplar todos os cidadãos (como previsto pela legislação) seria tirar o foco, já que a escola não estaria selecionando os estudantes. A universalização beneficiaria a um público difuso e não organizado, que não faria bom uso do benefício, ao contrário de um cliente certo, o empresário comprador de força-de-trabalho. O PREAL também sugere lançar mão de outras formas de cooptação, como a atenção a algumas reivindicações salariais, além da oferta de privilégios políticos aos discordantes, principalmente durante as campanhas eleitorais. A repressão ficaria ao encargo dos gestores/diretores, que saberiam adotar sanções, inclusive psicológicas, para obter o bom desempenho, premiando os bons e punindo os maus docentes.
    Quanto ao sindicalismo docente, o PREAL propõe, além da cooptação e da repressão, o exercício da influência política, estimulando chapas coesas compostas por uma única força política,  para evitar dissidências internas às diretorias, que poderiam colocar em risco, pela vigilância mútua das correntes políticas, dos diretores vulneráveis à cooptação. Podemos notar uma contradição neste discurso: se o sindicalismo significa uma barreira para essas metas e propostas traçadas pelo empresariado serem implementadas, por que o PREAL insiste em dizer que há um consenso na sociedade sobre estas mesmas metas e propostas, como consta em praticamente todos os documentos? Há no discurso do PREAL a falácia do consenso, ao propagandear um apoio social às reformas. Podemos compreender que há idéia de consenso apenas por parte de uma parcela desta sociedade. Esta parcela seria justamente a que financia essas práticas, ou seja, o setor empresarial, alguns especialistas e organismos como o PREAL que influenciam na implementação de reformas. Podemos então notar que o grande alvo de ataque do PREAL são justamente os professores sindicalizados que travam lutas pela melhoria nas condições de trabalho,  que afetam direta e indiretamente a qualidade da educação nacional. Este ataque ocorre no contexto de todos os setores da economia no processo de hegemonia neoliberal de desmobilização das organizações dos trabalhadores, na flexibilização das relações de trabalho e expropriação dos direitos trabalhistas. Para alcançar o consenso ou apenas para fins de cooptação, o Preal divulga maciçamente pesquisas - sobre sistemas de avaliação, remuneração entre outras questões educacionais,- que “deram certo” em outros países. Os países que comumente são dados como exemplo são justamente aqueles classificados como desenvolvidos (como por exemplo os Estados Unidos da América) ou aqueles onde o neoliberalismo já vem atuando de forma mais incisiva, como é o caso do Chile, muito citado nas pesquisas veiculadas pelo organismo em destaque, por ser o primeiro país latino americano a adotar práticas e políticas neoliberais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

       Relacionando de forma determinista educação e economia, o PREAL legitima o assujeitamento daqueles que escrevem a história da prática educativa como um espaço de luta contra-hegemônica, particularmente o movimento sindical docente. Fatos da economia globalizada em sua fase neoliberal são tratados com a sacralização do que é imponderável: a “nova economia”, as “novas tecnologias de produção” são “promovidos”, da condição de fenômenos dinâmicos da vida social, ao status de sujeitos históricos ou dados indiscutíveis que expressam um grau de “progresso” irreversível. O que cabe à escola é promover a adaptação, a produtividade e a “moderna cidadania vinculada à competitividade” A “nova ordem mundial” conclama os pobres a enriquecerem e a se tornarem mercadorias compráveis (“empregáveis”) pela escolarização. Esta lógica falaciosa oculta as raízes da desigualdade e toma a escola em sua mais vulgar função reprodutora.
REFERÊNCIAS:

EVANGELISTA, Olinda. SHIROMA, Eneida. Professor: obstáculo à reforma do Estado. In: XXV Congreso de la Asociación Latinoamericana de Sociología. Porto Alegre, UFRS. 22 a 26 de Agosto de 2005. Disponível em: http://www.gepeto.ced.ufsc.br/arquivos/Professor1.pdf
Acessado em 14 de Agosto de 2009.

LIANG, Xiaoyan. Remuneração dos professores em 12 países da América Latina: como se compara a remuneração dos professores com a de outras profissões; o que a determina, e quem são os professores?  Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe (PREAL). Nº 27. Dezembro, 2003. Disponível em:

LIMA, Kátia Regina de Souza. Organismos Internacionais: o capital em busca de novos campos de exploração. In: NEVES, Lúcia (org.). O empresariamento da educação: novos contornos do ensino superior no Brasil dos anos de 1990. São Paulo: Xamã, 2002.

MELLO, Guiomar Namo. Formação Inicial de Professores para a Educação Básica – uma (re) visão radical, 2000.

MORDUCHOWICZ, Alejandro. Carreiras, Incentivos e Estruturas Salariais Docentes. In: Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe (PREAL), 2003. Disponível em: http://www.oei.es/docentes/articulos/carreras_incentivos_estructuras_salariales_docentes_morduchowicz_portugues.pdf
Acessado em 15 de Outubro de 2009.

PAULO RENATO. Contra o corporativismo. Veja, São Paulo: 28 de outubro de 2009. Entrevista concedida a Mônica Weinberg. Disponível em http://veja.abril.com.br/281009/contra-corporativismo-p-019.shtml
Acessado em 18 de Dezembro de 2009.

SANTOS, Aparecida de Fátima Tiradentes dos. Entre a cooptação e a repressão: capital e trabalho nas reformas educacionais latino-americanas. In: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. Temas de ensino médio: trilhas da identidade. Rio de Janeiro: EPSJV, 2004.

VAILLANT, Denise. Algunos Marcos Referenciales en la Evaluación del Desempeño Docente. Revista Iberoamericana de Evaluación Educativa, 1(2), pp. 7-22, 2003. Disponível em:
Acessado em 20 de Agosto de 2009.
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i Referimos-nos as crises do Petróleo na década de 1970, e ao ideário Neoliberal que surge na Inglaterra e nos Estados Unidos. Não nos deteremos nesta temática, por ser esta pano de fundo da nossa discussão.
ii Ações educativas apreendidas no interior do processo produtivo.  Trata-se de uma “educação interessada” do capital que busca (con)formar os trabalhadores sob sua ótica.  Para saber mais sobre este tema ver o verbete Educação Corporativa em: SANTOS, Aparecida. RIBEIRO, Nayla. Educação Corporativa. In: no Dicionário da Educação Profissional em Saúde. PEREIRA, Isabel Brasil. LIMA, Júlio César França (orgs.). Dicionário da Educação Profissional em Saúde. 2ª ed. Rio de Janeiro: EPSJV, 2009. 


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